quarta-feira, 15 de junho de 2011

PORQUE É QUE VÃO CHATEAR O CAMÕES?

Um bando luzidio de figurões, a quem as agruras da vida nunca tocam, e que, pelo contrário, são responsáveis, por acção, ou omissão – mais por aquela do que por esta –, pelas agruras da vida de milhões de portugueses, reúne-se anualmente para discorrer – e ouvir discorrer – sobre o Portugal que somos. Pelo meio, distribuem-se umas latas com fitinhas, a pretexto de pretensos méritos e serviços prestados por outros figurões, raro sendo o caso em que se pode dizer: benza-te deus, desta vez acertaste!

O chefe de estado de serviço na ocasião, em ofuscante discurso, dá sempre pistas e sugestões para retirar o país da apagada e vil tristeza, onde ele e muitos dos presentes o mantêm. A expressão, por si só, não bastaria para meter Camões ao barulho, mesmo que se dê carácter premonitório às conhecidas estrofes – erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se esconjuraram – pois não é líquido que Camões conseguisse antecipar os erros que os lusitanos actuais cometam quando se entregam a vis sebosos, ser a má fortuna uma alusão ao facto de se ter nascido neste quase cume da cabeça da Europa toda, ou que o amor ardente signifique a fidelidade canina ao partido que se ama, mesmo que este o sodomize sem parar. Basta aliás, pensar-se que, a ser vivo, Camões poderia escrever, se Portugal quisesse definir, não Eis aqui quase cume da cabeça da Europa toda, o Reino Lusitano, mas Eis-nos aqui na cauda da Europa, a mendigar tostões, de mão estendida, ou coisa do género. Aproveitar Camões para, ano após ano, dizer vulgaridades e distribuir caricas, não é só ridículo: é obsceno.

Este ano, o senhor Silva descobriu que devemos voltar à agricultura e ao interior despovoado. Olha quem fala! Quem é que, como primeiro-ministro, cascou na agricultura e se fartou de despovoar? Meritória acção, aliás, da qual os seus antecessores e sucessores no cargo devem compartilhar as honras. Ao senhor Silva – que até há bem pouco tempo não sabia (já saberá?) em quantos cantos se dividem Os Lusíadas – não ocorreu, na circunstância, explicar-nos como é compatível o desenvolvimento da agricultura e da agro-pecuária, tal como das pescas, se aceitamos a imposição de quotas que nos impedem de produzir o que podíamos – e devíamos. O senhor Silva também podia ter decifrado o mistério dos fundos europeus, que serviram para tudo – principalmente para arrancarmos oliveiras, abater navios de pesca, deixarmos de apertar as tetas às vacas e construirmos milhares de quilómetros de estradas e auto-estradas, pelas quais o interior se esvaiu a caminho de um litoral de pelintras e de pedintes – menos para aumentar a nossa capacidade produtiva, que era disso que precisávamos – e precisamos. Mas é precisamente isso que os nossos parceiros europeus não querem.

O dez de Junho é, todo ele, um retrato de um país pindérico e condenado. Pindérico nos discursos, nas ideias e nas vaidades balofas. Condenado à subserviência ao estrangeiro e aos interesses dos grandes mercadores do dinheiro – os investidores, no linguajar do senhor Silva – e porque continua a creditar naqueles que, década após década, o conduziram ao mais aterrador estado vegetativo.

Camões cantou:

Não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.

Pois está.





(João Carlos Pereira)



Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 15/06/2011.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

NOTÍCIAS DA RATOLÂNDIA



Num país chamado Ratolândia, onde, como o nome indica, viviam ratos, a rotina era alterada de quatro em quatro anos, por via da realização de eleições. Era uma festa. Nessa altura, os ratos eram chamados a votar, tendo em vista eleger o seu parlamento e, consequentemente, o seu governo.

Curiosamente, quem concorria e ganhava as eleições eram os gatos, sendo que os gatos pretos estavam no poder há muito tempo. Uma vez eleitos, fizeram e aplicaram
as leis com extrema competência, pelo menos do ponto de vista dos gatos, que outra coisa não eram. Uma das leis, dizia que a casa dos ratos deveria ter uma entrada em arco, destinada a permitir que os gatos pudessem lá meter as patas. Outra das leis determinava que os ratos respeitassem um certo limite de velocidade, de forma a permitir que os gatos pudessem obter as suas refeições sem terem que correr muito.

Fartos disto, os ratos começaram a protestar, tendo, então, aparecido os gatos brancos, que convenceram os ratos a votar neles, caso quisessem acabar com as suas desgraças. E ganharam as eleições. Logo os gatos brancos resolveram mudar o formato da entrada da casa dos ratos, que passou a ser rectangular, o que permitia que lá entrassem as duas patas dos gatos, em vez de uma. Também reduziram o limite de
velocidade. Quatro anos depois, desiludidos, os ratos resolveram castigar os gatos brancos, voltando a votar nos gatos pretos. E, quatro anos mais tarde, já estavam a votar nos gatos brancos, para castigar os gatos pretos. Até chegaram a votar em gatos meio brancos e meio pretos, a que chamaram coligação, mas os resultados não mudaram, porque é desígnio dos gatos viveram de comer ratos, e isso nunca vai mudar. Não é que sejam maus, é que a vida é mesmo assim...

Foi então que apareceu um rato que disse que as coisas tinham que mudar, mas que só mudariam quando os ratos elegessem outros ratos para governar. Foi o fim do mundo. Logo alguns ratos lhe chamaram comunista e o meteram na prisão.

Nas eleições que se seguiram, voltaram a votar nos gatos pretos.

Agora, na minha condição de rato, venho informar a querida rataria que nas eleições cá da Ratolândia voltaram a ganhar os gatos. Como era previsível, desta vez coube a vitória ao gato branco. Daqui a quatro anos, será a vez de a vitória sorrir ao gato preto. E assim sucessivamente, como mandam os bons costumes e os princípios da alternância democrática. E como, aliás, tem sucedido até agora, com excelentes resultados. Para os gatos, claro.

Uma saudação especial para os ratos que não votaram nos gatos e, principalmente, para a grande maioria dos ratos inscritos, que não se deu sequer ao trabalho de votar. Se calhar, é mesmo esse o caminho. Os gatos que votem uns nos outros. E, já agora, que comecem a trabalhar, porque se os ratos tivessem juízo, cruzavam as patas - e quem quisesse bolota, que trepasse.

Ah! Já me esquecia: o gato negro pôs-se a milhas. Se calhar vai aos robalos, com o gato Vara. Ou - quem sabe? - vender Magalhães.




(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 08/06/2011.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Durante 35 anos bem contados, PS, PSD e CDS deram com o país de pantanas. Se alguém disser que isto é mentira – e sem querer ofender – ficarei a pensar coisas muito feias a seu respeito. A mais lisonjeira, é que se trata de uma pessoa com sérios problemas neurológicos, eventualmente o mal de Alzheimer.

Destes três partidos, e de todos os políticos que governaram, não há dúvida nenhuma que foram o PS e Sócrates quem mais contribuiu para o descalabro económico, social, político, cultural e ético em que vivemos. Se alguém disser que isto é mentira – e sem querer ofender – ficarei a pensar que se trata de uma pessoa totalmente desprovida de neurónios, caso não padeça de mitomania, mal que afecta os vulgarmente chamados mentirosos obssessivos-compulsivos, exactamente o mal que aflige o senhor Sócrates.

Apesar disso, verificamos que as sondagens colocam os três partidos responsáveis pela nossa ruína como os mais aptos a dela retirar-nos. PS e PSD arrebanham – e nunca o termo teve tanta propriedade – cerca de 70% dos que se espera que votem. Isto faz-me lembrar aquelas pobres mulheres que passam o tempo a enfardar murro, pontapé e insultos do querido companheiro, mas que nada fazem, convencidas que ele há-de entrar, um dia, no bom caminho. O que lhes acontece, se não se libertam da canga, é enfardar até ao dia em que morram de morte natural, caso a coisa não se resolva antes, seja na ponta de uma navalha, à bala ou a golpes de machado.

Que enigma é este que leva alguns milhões de pessoas a comportarem-se como estúpidas mulheres submissas face às diatribes de maridos inclementes, brutais e mentecaptos? Porque será que milhões de pessoas com idades superiores a quarenta anos, parece nada terem aprendido com o que fizeram Soares, Cavacos, Guterres, Durões e Sócrates?

Que bloqueios mentais, que misteriosa hipnose faz milhões de pessoas acreditar que cada campanha eleitoral é a purificação das mentes dos malfeitores que, paulatinamente, deram cabo das pescas, da agricultura, da indústria, esbanjaram os dinheiros públicos, colocaram-nos à beira da bancarrota, transformaram Portugal num dos países mais desqualificados do mundo, uma anedota vergonhosa da Europa a 27, o único país em recessão, com as maiores desigualdades sociais e cujos índices de desenvolvimento humano se aproximam, escandalosamente, do chamado Terceiro Mundo?

Que bebedeira colectiva é esta que leva milhares e milhares de vítimas das políticas desenvolvidas pelo PS e pelo PSD – os desempregados, os pensionistas dos oito euros por dia, os trabalhadores dos 500 euros, os que nem salário recebem, os que perderam casa e o fruto de anos de trabalho – a entregar o seu futuro a quem, precisamente, destruiu o seu presente e o seu passado?

Não sei responder.

A única coisa que sei é que eu não como e calo.

Eu não faço parte deste rebanho acéfalo.



(João Carlos Pereira)



Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 01/06/2011.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A PALHAÇADA ELEITORAL

Com quase toda a gente entretida com a algazarra da campanha eleitoral, aparentemente convencida que as eleições de 5 Junho se fazem para resolver os nossos problemas, não há espaço nem tempo para falar verdade. E a verdade é simples, mas brutal: as eleições são uma palhaçada. Saia quem sair vencedor, o nosso futuro está escrito e rescrito. Quem nos vai governar – como tem governado até aqui – são os donos do dinheiro. Sócrates, Passos Coelho ou Portas não passam de meros figurantes, os palhaços de serviço, cuja principal responsabilidade é entreter a malta e fazê-la acreditar que o voto serve para alguma coisa. É tudo cenário, é tudo uma patranha, é tudo uma falácia.

A lógica eleitoral do povo português é punir quem está a governar, ou votar no «clube» do seu coração. Por isso, cerca de 70% dos eleitores vai às urnas com o único propósito de se vingar ou, na melhor das hipóteses, dar a vitória às suas cores, querendo lá saber do que virá a seguir. Ganhe o seu clube – ou melhor: perca o clube do adversário –, e que se lixe o desemprego, a perda do poder de compra, a penhora da casinha, o filho que nunca mais tem vida própria, a fominha, a operação que não se pode fazer, a roupa que não se pode comprar, os estudos que têm que ser interrompidos. Ganhámos as eleições, está tudo bem.

É claro que entre Sócrates e Passos Coelho há diferenças. Sócrates é, acima de tudo, um intrujão desvairado; e Passos Coelho é, acima de tudo, um totó inconsistente. Já entre PS e PSD não há diferenças nenhumas, salvo nas palavras.

O PS finge que defende o estado social, mas só o tem destruído;
e o PSD nem se dá ao trabalho de fingir.

O PS finge que não quer privatizar tudo, mas jamais algum partido privatizou tanto como ele;
o PSD não está com meias medidas: quer privatizar o mesmo que o PS, mas não se importa de o confessar.

Para um e para outro, as necessidades das pessoas são, antes de tudo, uma fonte de receita para que tem nas mãos o que precisamos para viver. Do comprimido à água, da educação à reforma, da maternidade ao cemitério. Paulo Portas, no meio disto tudo, não passa de um contra-peso.

Agora, toda a gente sabe que vamos ser governados pelos donos do dinheiro. Aliás, eles gostam de nos governar sem que se note, como agora aconteceu, com a vinda da Troika. Eles preferem não ser vistos, nem ouvidos, nem falados. Para fazer o seu trabalho é que existem os governos. Só quando os governos se espalham ao comprido, como aconteceu por via das loucuras de Sócrates, é que eles são obrigados a pôr ordem na casa, não vá o diabo tecê-las.

Mas são eles que sempre nos governaram. Eles determinam os preços das matérias-primas e de todos os recursos naturais, os juros e o preço do nosso trabalho. Eles não podem admitir que os povos – e os países – possam viver sem ter que recorrer ao dinheiro deles. Para cúmulo, o dinheiro deles é – vejam bem – nada mais, nada menos, do que o nosso dinheiro. Porque o depositámos nos bancos, ou porque fomos nós, os trabalhadores, que criámos a riqueza que, depois, se traduz em notas de banco.

São eles que nos governam. Sócrates e Passos, não passam de meros palhaços. E, ainda por cima, péssimos palhaços.

E as eleições são mera palhaçada. E um suicídio.

Pelo menos, enquanto os portugueses votarem como têm votado.




(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 25/05/2011.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

OS EXTERMINADORES IMPLACÁVEIS

Durante mais de 35 anos eles destruíram a nossa indústria, as nossas pescas, a nossa pecuária, a nossa agricultura.

Venderam ao desbarato a Siderurgia Nacional, arrasaram os estaleiros navais, arruinaram a indústria vidreira, desmantelaram a metalomecânica pesada e os têxteis.

Sabotaram as grandes empresas públicas para justificar a sua entrega ao sector privado – leia-se: aos grandes grupos económicos.

Ao fazê-lo, sacrificaram as nossas vidas aos interesses do lucro dos déspotas do capital financeiro mas, em contrapartida, foram compensados com tachos milionários nos conselhos de administração das empresas assim beneficiadas.

Hoje, a satisfação de quase todas as nossas necessidades básicas depende do quanto pudermos pagar aos senhores que, ao preço da uva mijona, compraram os sectores estratégicos da economia. Como se não bastasse, o Estado obriga-nos a comprar certos bens e serviços a esses mesmos privados, seja a inspecção do automóvel, sejam os seguros obrigatórios, sejam os chips para circularmos nas vias públicas. Querem obrigar-nos a mudar de pneus de quatro em quatro anos, mesmo que eles estejam como novos.

Ao longo de 35 dolorosos anos, o Serviço Nacional de Saúde foi sendo cientificamente estrangulado, para abrir espaço aos privados. Exemplo disso, é o vergonhoso estado a que chegou a maternidade Alfredo da Costa, onde os utentes são solicitados a contribuir com qualquer coisinha, pois fraldas, leite e medicamentos não chegam para as encomendas. O sistema público de educação sofreu ataques furiosos, enquanto os privados prosperam.

A privatização dos cemitérios já veio à baila. As empresas público-privadas custam balúrdios ao Estado, mas fazem as delícias dos administradores e respectivos séquitos.

A ÚLTIMA FRONTEIRA DESTA FÚRIA DEVORADORA É A ÁGUA.

Aquilo que os reis – até os mais tiranos – cuidavam que não faltasse ao povo, espalhando chafarizes por toda a parte, querem estes bastardos ao serviço do grande capital entregar, também, nas mãos gulosas da grande vampiragem.

Durante 35 anos eles atascaram o aparelho do Estado com – e a expressão é de D. Manuel Martins, antigo Bispo de Setúbal – os amigos, os parentes, os amigos dos parentes e os parentes dos amigos – e quando a gamela já não chegava para tanto bácoro, inventaram os institutos, as fundações e as empresas públicas, onde deram assento de luxo a um infinito bando de amigalhaços.

Paralelamente, criaram esquemas de financiamento partidário, com base na adjudicação de obras e fornecimentos públicos, onde parte importante dos custos é encaminhado para o partido no poder – seja a nível central, seja a nível local – ficando sempre parte importante da verba no bolso do fiel intermediário.

Chegámos ao que hoje sabemos. Diziam que as suas políticas eram a receita para salvar o país. Aí está o resultado: um abismo.

Quando é que esta gente responde pelos seus crimes?





(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 18/05/2011.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

PRENDÊ-LOS? ERA POUCO…

...


Se os argumentos de Catroga para levar Sócrates a tribunal fossem aplicados à letra – e eu acho que sim – então Catroga também deve fazer parte da lista. Catroga e Soares, Cavaco e Guterres, Durão e Manuela, Cadilhe e Beleza, Portas, Bagão, Constâncio (como ceguinho-mor agarrado à teta do banco de Portugal) e todos quanto passaram pelos governos do PS e PSD, com as muletas dos CDS e PPM.

Claro que o PS, com 18,6 anos de governação, e o PSD, com 15,5 anos de governação, são as organizações criminosas com mais responsabilidades nos crimes de lesa-pátria que agora percebemos terem sido cometidos. É julgá-los, sem dúvida, e sem qualquer espécie de atenuantes.

Como réus maiores, inquestionavelmente, Sócrates e o PS. Pela dimensão e gravidade dos crimes, pela sua contumácia, pelo número de vítimas causado e, no que a Sócrates respeita, pela forma dolosa como foram cometidos, nitidamente consciente dos males que causava, o que se prova pela forma como pretendeu, constantemente, negá-los, dissimulá-los e atribuir a terceiros a sua autoria. Ele é, sem dúvida, o mais perigoso dos criminosos a levar a julgamento. Provas? Ei-las:

Anos de Poder
PS: 18,6 - PSD – 15,5

Dívida pública contraída
PS: 113,7 mil milhões - PSD 55 mil milhões

Neste imenso buraco, qual a responsabilidade de Sócrates?
Anos de poder: 6
Dívida Pública contraída: 83 mil milhões


(quase tanto como os outros governos todos juntos!)

Na dívida pública contraída pelo PS, nos seus 18,6 anos de poder, que totaliza 113,7 mil milhões de euros, Sócrates, em apenas 6 anos, é responsável por 83 mil milhões. Isto é: em menos de 1/3 do tempo em que o PS, por infelicidade nossa, esteve no poder, Sócrates cometeu a proeza de ser o autor de quase 74% da dívida contraída pelo bando do Largo do Rato.

Em 37 anos de (digamos) democracia, o PS governou mais de 18, e o PSD mais de 15. Endividaram o país em quase 170 mil milhões de euros, esbanjaram fundos comunitários, arrasaram a economia, venderam o aparelho produtivo ao estrangeiro, encheram o aparelho do estado de parasitas com os seus cartões partidários, decretaram para a corja governante bons salários e reformas rápidas, para além de acesso a muitos e generosos tachos, abriram o buraco das contas públicas – que iam tapando com novos e sempre mais caros empréstimos – e apresentam-se agora como os grandes salvadores da Pátria.

Sócrates – de entre todos o maior responsável pela desgraça a que chegámos – ainda anda por aí como se nada fosse com ele. E parece que este povo, desgraçado e obtuso, ainda não percebeu em que buraco está metido. A que gente está entregue.

Portugal não é um país: é uma pocilga.




(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 11/05/2011.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O ESPANTO DE UM OCIDENTAL

Acabei de aterrar em Portugal, país que, segundo ouvi, integra uma comunidade europeia com 27 países, entre os quais a nata da civilização ocidental, de inspiração judaico-cristã e, sem a menor dúvida, berço da todas as democracias – as havidas e as por haver. Recordo que essa civilização levou ao mundo inteiro as luzes da Verdade, da Justiça e da verdadeira Fé, coisa que fez a bem (sempre que possível), ou a mal, fosse à ponta de espada, ou à lei da bala (quando os indígenas, ou nativos, não estavam muito receptivos à boa-nova). Uma das coisas que me chamou a atenção, foi verificar a quantidade de especialista em política mundial que existem neste país. Sabem, por exemplo, tudo sobre Cuba, Líbia, Coreia do Norte, Venezuela, Iraque, China ou Afeganistão. E têm soluções para todos os problemas que existem nesses países. Segundo parece, consiste em adoptar um sistema político e económico igual ao português.

Contudo, mal cheguei, deparei-me com algumas situações que julgava verdadeiramente impensáveis. Passo já aos factos, retirados de fontes insuspeitas, tais como o INE, o EUROSTAT, relatórios do Banco de Portugal e comunicação social. Desemprego galopante. Salários e pensões baixíssimos. Criminalidade a dar com um pau. Prostituição esquina sim, esquina não, pinheiro sim, pinheiro não, para além das senhoras que se oferecem, aos milhares, em dezenas de páginas de requintado bom gosto, nalguns jornais nacionais, com publicidade paga. Falências aos milhares. Corrupção, upa, upa, principalmente a nível de órgãos de soberania e da administração. Crime de colarinho branco que, tal como a prostituição e a corrupção, são as únicas actividades florescentes, bem se podendo considerar as verdadeiras – e grandes – indústrias nacionais. Milhares de doentes em listas de espera. Fome. Cerca de dois milhões de portugueses considerados pobres ou a raiar a miséria. Dos realmente miseráveis, não rezam as estatísticas. A agricultura, as pescas e a indústria reduzidas à sua expressão mais simples. Ao mesmo tempo, uma elite política e empresarial estabelece para si ordenados, reformas e prémios de gestão – mesmo quando as suas empresas dão prejuízo – dignos de autênticos nababos.

Para além disto tudo, fiquei a saber que o país está nas lonas, apesar de o senhor primeiro-ministro dizer – e eu li e ouvi isso, no estrangeiro – ainda há bem pouco tempo, que Portugal estava bem e até se recomendava, podendo ser um exemplo para outras nações. Mas, de repente, pumba! Falimos. Por isso, andam, por aí uns senhores a ver o estado a que chegámos e, segundo se diz, vão apresentar uma factura duríssima, que a maioria dos portugueses vai ter que pagar com língua de palmo.

Acrescento que não acreditava quando, lá fora, ouvia dizer que Portugal era uma anedota, os governantes uns autênticos embusteiros, gente sem crédito, tudo isto ilustrado com histórias verdadeiramente incríveis. Pensei que era tudo uma campanha negra, uma imensa cabala. Pelos vistos, enganei-me. Como foi isto possível? Será que é tudo verdade, ou estarei a viver um pesadelo?

Será isto que os sabichões que por aí opinam, tal como os vários especialistas em política internacional, querem exportar para países como Cuba, por exemplo?




(João Carlos Pereira)



Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 04/05/2011.