quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O REINO DOS DEMOCRATAS (I)


A Democracia é o reino dos democratas. Está estruturada em feudos (vulgo: partidos), que se subdividem em três grupos, ou extractos: os Senhores, os Pajens e os Apaniguados – ou Devotos, dado que só servem para votar e dizer amém.

Os Senhores de cada feudo decidem, dizem, desdizem, põem e contrapõem. Repartem entre si os fundos e os proveitos, também chamados saque, ou despojos. Periodicamente, disputam com os Senhores dos outros feudos o direito a ocupar o trono real por um período de quatro anos. O vencedor pode governar todo o Reino como se do seu próprio feudo se tratasse.

Os Pajens servem fielmente os Senhores, a troco de razoável paga em dinheiro e em espécie, podendo, se os préstimos forem excelentes, aceder à categoria de Pajem-Delfim (ou Boy), de onde, sendo suficientemente espertos e isentos de escrúpulos, será apenas um pulinho até ao topo senhorial.

O Apaniguado, ou Devoto, limita-se a votar no respectivo Senhor e a manifestar, de forma mais ou menos explícita – ou seja; com maior ou menor gritaria – o seu apoio à casa senhorial. De nada mais sabe, nem quer saber. É muito disputado pelos Senhores, dada a sua excelente capacidade de não pensar – ou de não ter capacidades cognitivas – quer porque os seus neurónios são poucos e de má qualidade, quer porque foram neutralizados por conteúdos difundidos via media, tipo Casa dos Segredos, Agora é que Conta, Ídolos, telenovelas quanto baste, futebol e sessões de lavagem cerebral levadas a cabo pelos postilhões de cada feudo. O Apaniguado repete slogans, e com isso se satisfaz. Exulta, se o seu Senhor ocupar o trono. Deprime-se, se o não conseguir. Para ele, o seu Senhor governa sempre bem. Já o Senhor alheio é sempre um governante nefasto. O Apaniguado é, nos tempos que correm, o mais perfeito paradigma do indivíduo acéfalo, isto é, do cidadão exemplar, que serve para trabalhar, pagar imposto e ver televisão. Em termos de argumentação, está habilitado a dizer a única coisa que conseguiu aprender: «Estes podem não prestar, mas os outros são iguais…». Que se saiba, é raro um Apaniguado conseguir concluir que todos os Senhores, incluindo o seu, são predadores naturais da espécie humana.

Embora os diversos feudos se confrontem pela conquista do trono, estabeleceram pactos e normas que conferem direitos inalienáveis a todos os Senhores e respectivos séquitos, pelo que dispõem, ao abrigo das leis (por si – e para isso – elaboradas), de pecúlios – bens e aforros – vedados aos entes comuns. Isto é: os Senhores podem apropriar-se das riquezas do reino praticamente sem limitações. Mesmo em caso de manifesto abuso ou desaforada ilegalidade, estão protegidos por um estatuto de impunidade que manieta a Justiça, sempre célere e eficaz quando o prevaricador é o vulgar cidadão, incluindo os Apaniguados, ou Devotos.

Existe um grupo heterogéneo de cidadãos que não se integram nesta estrutura política e social, embora também trabalhem e paguem impostos. São, no geral, considerados párias, irresponsáveis, obtusos e – porque não participam nas pugnas pelo trono – são tidos como culpados por qualquer coisa que corra menos bem. Ou muito mal. Ou pessimamente.

Apesar de laica, a Democracia obedece a um poder superior, cujo nome não gera consensos. Para uns, é a Economia de Mercado; para outros, é o Poder Económico, ou Capital Financeiro; há quem diga, como os Apaniguados, que «é a vida, o que é que se há-de fazer?».

E assim vai o reino dos Democratas…


(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 26/01/2011.
Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O CRIME E OS CRIMINOSOS

O gabinete do senhor primeiro-ministro gasta, por dia, 11.391 euros. Só Sócrates e o seu querido delfim, Pedro Silva Pereira, custam aos portugueses 4 milhões de euros ao ano. A presidência da república custa mais aos portugueses que a monarquia espanhola, com os seus príncipes e princesas, custa aos espanhóis. Mas a maioria dos criminosos fica em liberdade a aguardar julgamento, porque o legislador passou de três para cinco anos a pena para crimes que permitiam aos juízes aplicar a prisão preventiva. A razão é que não há dinheiro para sustentar tanto patife. E o crime violento disparou. Portugal é o paraíso dos patifes. E governam-se bem, especialmente os de colarinho branco e fatinho Armani...

Os medicamentos custam cada vez mais aos portugueses. Doentes crónicos, como os doentes oncológicos ou do foro neurológico, pagam, agora, exorbitâncias para poderem ter uma vida com alguma qualidade. Milhares de doentes, sobretudo idosos, só conseguem atenuar as suas maleitas devido à generosidade e compreensão das farmácias, onde o rol de fiados aumenta todos os dias. Em Portugal, um medicamento para doentes oncológicos (Capecitabina) custa 443,63 euros, enquanto em Espanha e França custa menos 100 e 95 euros, respectivamente. Se o medicamento, para a mesma doença for a Cladribina, o custo é de 1750 euros, mais 250 euros que em Espanha e França. Mas pagou-se a burla no BPN.

O país envelhece – e adoece – a cada dia que passa mas, em vez de aplicar políticas de apoio à natalidade, o governo corta o – ou no – abono de família.

Portugal perdeu mais de 390 mil hectares de área agrícola. Quem o diz é uma fonte insuspeita, o Instituto Nacional de Estatística, que acrescenta ter havido uma redução enorme de explorações e agricultores. Em consequência, somos obrigados a importar cada vez mais produtos alimentares, agravando a nossa dívida externa e obrigando-nos a consumir, em muitos casos, o refugo dos países a quem compramos. Porque fomos obrigados a viver de subsídios e a construir estradas e auto-estradas (cada vez mais desertas), andamos agora de mão estendida a pedir dinheiro emprestado, a juros asfixiantes, e preparados, mais dia, menos dia, para vermos entrar por aí os emissários dos credores. Não virão para resolver os nossos problemas, mas para garantir que vamos pagar a quem devemos. Com mais fome, mais desemprego, mais doença, mais morte.

Para fazer dinheiro, o governo vendeu ao desbarato as nossas melhores e mais lucrativas empresas – e agora, nem empresas nem dinheiro. Não podem dizer que não foram avisados das consequências. O PCP avisou.

Então, não foram os ordenados nem as pensões dos portugueses que levaram o país à ruína. Eles são os mais baixos da Europa. Não foi o preço dos medicamentos que delapidaram os cofres do estado, porque eles são dos mais caros da Europa. O que nos conduziu à situação que hoje vivemos, foi terem morto a capacidade produtiva do país. Foi esse o crime.

Falta o nome dos criminosos: todos os que nos governaram após o 25 de Novembro de 1975. De Mário Soares a Sócrates, passando por Cavaco e Durão, nenhum é inocente. E nenhum tem perdão, porque eles souberam sempre o que estavam a fazer.

Quem não sabe o que faz, é a maioria do povo. Está cada vez mais loira, como as eleições de domingo irão demonstrar.


(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 19/01/2011.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O POVO PORTUGUÊS É UMA LOIRA


Está interessante a campanha para as presidenciais. De alto nível. Os dois principais candidatos andam entretidos a falar – ou a mandar falar – dos podres um do outro. Alegre, entalado entre um PS – o seu PS – que conduziu o país à ruína, e um Bloco de Esquerda que nem do PS quer ouvir falar, parece ter percebido que a sua fanfarronice é chão que já deu uvas. É do PS, mas não quer que se saiba; não é do Bloco, mas quer fazer crer que até podia ser. E voto dos camaradas comunistas, que ele em tempos renegou – e hoje abjura – que venham às pazadas. Caíam que nem sopa no mel…

Fala grosso, diz palavras lindíssimas, como solidariedade, democracia e república, mas, no fundo, sempre esteve ao lado do bando cor-de-rosa. A solidariedade socialista e os seus valores democráticos e republicanos, sabemos nós o que são: chamam-se roubalhe
ira, corrupção, compadrio, amanhanço à má fila, tentativa de controlo da comunicação social e toda uma série de desmandos dignos do currículo de um enxofrado coronel das velhas Repúblicas das Bananas. E muita degeneração à mistura. Ciente da banhada que vai levar, pôs-se, a propósito do BPN, a atirar pedras a Cavaco. Até parece que não esteve cá no tempo – e já lá vão uns anitos – em que a coisa estoirou mesmo debaixo das barbas do seu querido camarada, o distraído Vítor Constâncio. Mais vale tarde, dirão os totós. E as loiras…

Cavaco, por seu lado, quer fazer crer que o BPN lhe passou ao lado, e que a pequena fortuna que lhe medrou no bolso, foi um mero – embora infeliz – acaso. Ele também nada sabia dos esquemas do BPN, como não percebe nada dessas coisas de aplicações financeiras, embora, valha a verdade, seja mesmo economista, com diploma passado a dia útil. Limpinho. E logo vem à baila a reforma de 600 contos que Alegre nem se lembrava que tinha, conseguida ao fim de seis longos
mesinhos a debitar palavrório no velho Rádio Clube Português. E para provar que o poeta anda mesmo mal da memória, aparece a história de um cheque que não foi cheque, mas sim dinheiro que foi devolvido – ou talvez não. Ou seja: que ele devolveu, por cheque, mas que não sabe se o cheque foi descontado, mas a verdade é que o valor veio contra a sua vontade – ou seria sem o seu conhecimento? – mas que ele, na realidade, não queria, isto é… Olhem: o poeta não percebe nada de dinheiro, nem de reformas, o seu mister são as letras, os poemas, os decassílabos, o verso branco e as palavras belas, como liberdade, solidariedade e outras coisas a acabar em ade, como fatalidade, que o é estar-se num partido – o PS – que acabou de afundar o país, e ser-se apoiado por esse partido. E – volto a lembrar – por outro partido que nem pode ver o PS. «Ké kisso tem?», perguntam as loiras deste país.

Cavaco, valha a verdade, percebe é de pobreza. Vejam lá que descobriu, há quinze dias, que a pobreza era uma vergonha. Fiquei elucidado. Infelizmente, ele chegou a Portugal – e, provavelmente, ao planeta Terra – há precisamente duas semanas. Foi pena. Ele devia ter estado cá quando um tal Aníbal Silva foi primeiro-ministro e, mais tarde, presidente da república.

Mas não faz mal. O povo português é mesmo loira…

Completamente loira.


(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 12/01/2011.
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AUTOFAGIA


Mais de 100 mil portugueses andam por aí, de porta em porta, a tentar vender tralha diversa. É, em desespero de causa – porque não arranjam outro trabalho – um meio de conseguirem dinheiro para a bucha ou satisfazer outras necessidades, como pagar os estudos, ajudar a família ou honrar, simplesmente, os seus compromissos mais prementes. Estima-se que uma população flutuante de outros 100 mil portugueses esteja espalhada por vários centros de contactos telefónicos (vulgo, call-centers), sejam de empresas dedicadas exclusivamente a essa função, sejam de empresas que criaram esses serviços de contactos com o público para promoção dos seus produtos.

No fundo, o objectivo desses contactos porta a porta, ou via telefónica, é tentar impingir aos indígenas cordas para se enforcarem, tais como cartões de crédito, financiamentos e seguros, ou, no melhor dos casos, algo tão dispensável como assinaturas de revistas, novos serviços de telecomunicações e audiovi
sual, enfim, uma panóplia de produtos que, não sendo de primeira necessidade, se destinam, apenas, a extorquir os últimos cêntimos que possam existir nos bolsos dos incautos, nem que seja através do endividamento. Melhor: preferencialmente através do endividamento.

Hoje em dia, com o país incapaz – ou proibido – de produzir mais riqueza, já que as pescas, a agricultura e a indústria estão condicionadas pela sua incapacidade competitiva – fruto de congénitas inépcias empresariais e desdém governamental – ou das limitações impostas por Bruxelas, e criminosa e servilmente aceites pelos governos nacionais, o emprego que aparece é para andar por aí a vender a banha da cobra da economia global.

Deste modo, uma multidão de portugueses, com contratos precários e pagos ao preço da uva mijona, esfarrapa-se a tocar a campainhas e a subir e a descer escadas, ou a contactar telefonicamente os seus semelhantes, tentando, desesperadamente, levá-los a aceitar aquilo que, se eles de facto precisassem, sabiam muito bem onde encontrar sem serem incomodados a qualquer hora do dia e, muitas vezes, da noite. E porque a manutenção desse emprego e um reforço da magra remuneração mensal dependem da sua capacidade de impingir o produto à vítima, obrigam-se a utilizar todos os meios – eufemisticamente designados por «técnicas de vendas» – para alcançar esse fim. «Criem-lhes a necessidade», ouvem frequentemente.

Muitos portugueses que, infelizmente, não deviam ter, sequer, um porta-moedas, são aliciados a adquirir um cartão de crédito, que vai tornar-se, a curto prazo, na sua desgraça. O medo do amanhã leva-os ainda, a adquirir seguros que nada – ou pouco – cobrem, mas que pagam com língua de palmo. Porque a televisão lhes é apresentada como uma janela para o mundo – para o conhecimento – aceitam comprar pacotes de canais, nada mais pagando, afinal, do que umas horas de anestesia, caso não sejam umas horas do mais puro embrutecimento. E por aí fora.

Em Londres, Paris, Nova Iorque ou Madrid, alguém acumula fortunas à conta desta engrenagem maldita, onde cerca de duzentos mil portugueses, para iludir a fome ou a indigência, são obrigados a um verdadeiros trabalho de extorsão sobre aqueles que, afinal, nada mais são que seus infelizes semelhantes. Portugal é, verdadeiramente, um país em autofagia acelerada.

«Devorai-vos uns aos outros», é a ordem destes banqueiros sem rosto e sem nome, que a última coisa que querem é que os portugueses produzam mais carne, mais leite, mais trigo, mais azeite ou mais aço. Mais pão, afinal.

Feliz da vida, o poder político garante que tudo está sob controlo. A autofagia em curso não incomoda suas excelências.


(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 29/12/2010.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A SOPA (DEMOCRÁTICA) DOS POBRES


Quando eu era miúdo, muitos dos meus colegas iam para a escola descalços e, para além da sacola onde levavam os livros, levavam também uma panela numa alcofa para, mal tocasse a sineta, correrem para a fila da Sopa dos Pobres, que funcionava na rua de Campolide. Nessa altura, cidadão que falasse da fome que havia em Portugal, arriscava-se a bater com os ossos nas masmorras que a PIDE reservava para esses «oportunistas» políticos, na altura rotulados de perigosos subversivos anti-patriotas. Os jornais também não falavam da miséria existente, porque havia uma coisa chamada Censura. E desde muito cedo, o meu pai ensinou-me a ter cuidado com conversas sobre a situação política e, principalmente, a nunca revelar o que, a propósito dela, se dizia em nossa casa.

O fascismo não se traduz só por isto, mas estes factos – a fome e a opressão – estão gravados na minha memória como a marca de um sistema político desumano, opressor e caquéctico. Já homem maduro, vivi o 25 de Abril como um radioso despertar de um pesadelo vestido de negro e sujo de sangue. Um respirar de ar puro a plenos pulmões, depois de anos de asfixia numa cave infecta e putrefacta. Homem maduro, mas ingénuo quanto baste para ter julgado, na altura, que a fome, a desigualdade
e a opressão seriam coisas do passado. Que a Liberdade e a democracia nos garantiriam uma vida digna, livre da fome e das misérias – físicas e morais – que causticaram a maioria do povo português durante quase meio século. Que não seria assim, em breve Mário Soares se encarregou de nos explicar, mal se apanhou com as rédeas do país nas mãos. Daí para cá, não só se meteram na gaveta as ideias de justiça social, equidade e humanismo, como uma chusma de políticos, devassos e oportunistas, se encarregou de devolver o país à velha ordem social e económica que imperara até Abril de 1974.

De Mário Soares a Sócrates, o PS foi o diapasão dessa reentrega da vida e do futuro dos portugueses – do próprio país, afinal – nas mãos do grande capital financeiro, e a própria Liberdade passou a ser uma coisa sem sentido, pois nada mais resta que o voto induzido e condicionado pela manipulação ideológica – pela propaganda – e o «poder falar-se», mas desde que não sirva para mais que desabafar, ou seja, desde que não ponha em causa a natureza do sistema económico em que vivemos, assente na sangria das classes trabalhadores. Desde que não faça tremer a exploração da mão-de-obra que enriquece o capitalismo reinante – e cada vez mais selvagem.

Sócrates é o pináculo dessa chusma de políticos rascas e debochados que assaltaram o 25 de Abril, com o voto iludido de uma sociedade hipnotizada pelos malabaristas dos principais partidos que, tal como os toureiros aprenderam a conhecer as deficiências congénitas dos touros, também eles aprenderam a levar o povo no engano dos seus passes e volteios.

Por isso, a Sopa dos Pobres aí está, em todo o seu trágico esplendor. E, tal como Salazar queria que a fome e a pobreza não fossem destapadas, também Sócrates, seguindo a mesma cartilha, já fez o favor de avisar que não tolera que elas – a fome e a pobreza – sejam tema do debate político.

Entre o negro do fascismo e o cor-de-rosa destes falsos socialistas, se outras diferenças há, para além da cor, elas são – e tão só – de estilo.

A Sopa dos Pobres de Sócrates e do PS só é diferente da Sopa dos Pobres de Salazar, porque, por enquanto, ainda ninguém anda descalço. Mas é só por enquanto…



(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 22/12/2010.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

OS INIMPUTÁVEIS


Não sou eu que o digo. Ou melhor: não sou só eu que o digo. Portugal está de rastos. O país atravessa uma crise tremenda. Toda a gente o diz. Dizem-no, antes de mais, aqueles que não sentem a crise, a começar pela casta política, da esquerda à direita. Dizem-nos os banqueiros, os grandes empresários, os senhores de Bruxelas e os do FMI. Dizem-no, até, os padres e os bispos. E dizem-no – porque a sentem na pele, nos ossos, no estômago e nos bolsos – os desgraçados que trabalham, os ainda mais desgraçados que estão no desemprego, os pensionistas que auferem pensões infames, enfim, o populacho que sustenta as elites dirigentes e enche os vários alforges de aquém e além mar – ou seja, os off-shores. Dizem-no os pequenos e médios empresários, devorados por Belmiros, Amorins e outros magnatas. Portanto, se todos o dizem – e a grande maioria o sente – não há dúvida que o país está em adiantado estado de decomposição. Certo? Certíssimo!

Agora, vamos lá apurar responsáveis, já que nada acontece sem uma causa, um porquê. Serão os que recebem baixos salários, ou salários assim-assim? Os que recebem pensões miseráveis, ou quase? Os dois milhões de pobres? Os cerca de oitocentos mil desempregados? Enfim, os mais de 9 milhões de portugueses que vegetam ao sabor das venetas de quem manda? Sem medo de desmentido, venha ele do mais fino analista político, comentador diplomado, ideólogo doutorado do neo-liberalismo, ou qualquer economista com lugar cativo nos ecrãs televisivos, garanto que não. Se a cambada tem alguma culpa no cartório, ela resulta do simples facto de ter enfiado nas urnas os papelinhos errados.

Se não é a cambada que tem culpa – e não é – serão os senhores banqueiros e afins, já que são eles que têm nas mãos os cordelinhos da alta finança? Nem pensar! – respondem em coro. São eles que mantêm a economia de pé. Serão, então, os senhores que têm governado o país? Que blasfémia! Basta ouvi-los. Cada um governou melhor que o outro. De Mário Soares a Sócrates, passando por Cavaco, Guterres, Durão, Santana, Eanes, Sampaio, seja como governantes, seja como chefes supremos da nação – venerandos chefes de Estado, como se dizia em tempos que já lá vão – todos eles têm receitas infalíveis para retirar o país do atoleiro onde comprovadamente está. São virgens imaculadas, puríssimas.

Ouve-se falar Sócrates, e ninguém diria que está a governar o país há vários anos, quatro deles com maioria absoluta. Tudo o que fez foi bem feito. Ri-se, no seu estilo de truão compulsivo e sem vergonha na cara – já que nem tudo pode ser imputado a problemas de neurónios. Volta não volta, múmias ressuscitadas por uma televisão impiedosa, vêm opinar sobre a crise. Soares, Eanes, Sampaio, esgotados e repetitivos, parecem personagens absurdas de um filme de Antonioni. Nada de falar sobre o que fizeram – ou deixaram de fazer. Apenas sabem o que deve ser feito. São velhos sábios fora de prazo. Ridículos. Quase trágicos.

Não podendo imputar-se ao povo – porque não manda, não governa – as culpas pela situação que se vive, e recusando os actuais e antigos governantes qualquer responsabilidade na matéria (do poder económico nem é bom falar, porque são os mais inocentes nisto tudo, já que se limitam a fazer a sua obrigação de acumular lucros aos milhões), então, quem são os responsáveis pela desgraça a que chegámos?

Ninguém! Estamos no país dos inimputáveis!


(João Carlos Pereira)


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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ATÉ UM DIA…


O «socialista» Carlos César, que manda nos Açores, determinou que os cortes nos ordenados dos trabalhadores da função pública não se aplicam lá no feudo. Sócrates, com o seu habitual descaramento, alega que não manda nada nos Açores. Ao mesmo tempo, o governo determinou que os altos quadros do Estado já podem, afinal, continuar a acumular os ordenados e as pensões pagas pelo próprio Estado. Exactamente o mesmo governo que decidiu os cortes nos salários dos políticos e da função pública, mas que inscreveu, no OGE, um aumento de 20% em despesas de representação, com as quais os senhores políticos e os altos quadros da FP se compensam dos cortes proclamados. E até ficam a ganhar. Os cortes nas despesas, por outro lado, também não se aplicam aos hospitais com gestão empresarial, nem às empresas do Estado.

Afinal, quem vai pagar a crise? Que pergunta parva! A ralé, como de costume. Os remediados, os esfomeados, os miseráveis. O batalhão de jovens, homens e mulheres que vegetam por aí com baixos salários e trabalhos precários. Os reformados e pensionistas. Mas a elite política e empresarial, bem como todo o seu séquito de boys e girls, vai continuar a rir-se e a encher a pança e os bolsos. E a exigir mais sacrifícios aos portugueses.

O senhor Fernando Ulrich, presidente do BPI, por exemplo, declarou que os despedimentos devem ser rápidos e fáceis, ou seja, sempre que o patrão quiser. As pessoas não são pessoas. São instrumentos da gestão. O senhor Barroso, lá de Bruxelas, bolçou que os despedimentos devem ser mais baratos. Nada de indemnizações, nada de subsídios de desemprego que delapidem os cofres públicos. Trabalhador trabalha se tiver trabalho, o tempo que o patrão quiser, recebe o que o patrão quiser… e é se quiser. Come, se puder comprar alimentos. Ou se, por caridade, alguém lhe der uma esmola. Direitos? O que é isso? O tempo não está para luxos.

Falando em luxos. O senhor Rui Pedro Soares, conhecido como o boy dos boys de Sócrates, foi afastado da «primeira linha» da administração da PT depois do escândalo da compra da TVI. A própria PT garantiu que o boy tinha sido afastado da administração e que não era director fosse do que fosse, mas apenas funcionário. Sabem quanto ganha este «funcionário»? «Apenas» dez mil euros por mês, mais secretária e carro às ordens. Ganham bem, os funcionários da PT!

Portugal é o maior na pobreza infantil? Ninharias! Há mais de dois milhões de pobres em Portugal, 500 mil dos quais até têm trabalho? Que se lixe! Portugal é um dos países mais assimétricos da Europa na distribuição de rendimentos, onde os 20% mais ricos ganham 6,1 vezes mais do que os 20% mais pobres? Porreiro, pá! Assim, o senhor Ulrich e o senhor Rui Pedro Soares estão na maior!

Enfim, linda democracia a nossa! O senhor presidente do BPI, Fernando Ulrich, pode perfeitamente à vontade – e com toda a cobertura televisiva – alvitrar que qualquer trabalhador português possa ser posto no olho da rua sem mas nem porquês. É democrático. Mas se eu alvitrar que o senhor Fernando Ulrich – bem como qualquer parasita da sua laia – deveria passar a receber o salário mínimo e posto a trabalhar a sério nas minas de Aljustrel, e que os lucros da banca deveriam reverter para o desenvolvimento do país, em vez de engordarem os chupistas e calaceiros que engordam, já serei um perigoso revolucionário. Ou – sei lá – um temível subversivo, a tender para o terrorista.

Até um dia…

(João Carlos Pereira)

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