quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AS MÃOS SUJAS

Falemos de eleições. O primeiro e-mail que recebi após a divulgação dos resultados eleitorais dizia o seguinte: «O povo português tem o que merece. Incrível!». Corresponde àquilo que eu penso, tal como um amigo meu, que dizia, há dias, que se a maioria do povo português gosta de se rebolar na caca, só porque ela é quente e macia, então que se rebole. Pena é que os que não gostam acabem por ficar sujos na mesma borrada. Mais uma vez subscrevo.

É verdade que o PS perdeu meio milhão de votos. É verdade que o PSD encalhou numa votação muito abaixo das suas expectativas. Mas os dois partidos, que sempre estiveram às rédeas da governação de 1976 até hoje – trinta e três aninhos de recuos e sofrimentos, trinta e três aninhos a roubar o que o 25 de Abril deu ao povo português, trinta e três aninhos de vingança dos banqueiros e companhia, apadrinhada por Mário Soares, Cavaco, Guterres, Durão e Sócrates, entre outros – esses dois partidos, dizia eu, receberam mais de 66% dos votos, prova de duas coisas indiscutíveis: a primeira, é que o crime compensa; a segunda, é que o povo português não tem uma perspectiva social e política da vida, mas deixa-se levar, de maneira mais ou menos acéfala, pela via das simpatias pessoais ou afectos partidários, sem cuidar de saber se eles correspondem aos seus interesses enquanto cidadãos. Enquanto seres humanos.

Os resultados eleitorais – especialmente a votação maioritária nesses dois partidos – é tanto mais incompreensível quanto é certo que eles se acusaram mutuamente, e com toda a razão, de responsáveis pelo descalabro a que o país chegou. Mais desemprego, uma economia de rastos, o país e os cidadãos endividados até aos cabelos, a agricultura e as pescas destruídas, a indústria paralisada, baixos salários, péssimo poder de compra, má Saúde, pior Educação, péssimas reformas e prestações sociais. Com o PSD e, especialmente, com o PS, só cresceram os lucros da banca, a corrupção, a criminalidade, o fosso entre ricos e pobres e a distância entre Portugal e os parceiros europeus.

Esta percepção da vida, da realidade, que todos os portugueses deveriam ter quando se apresentam a votar, é impedida, na prática, pela manipulação ideológica desenvolvida pela maioria da comunicação social e, principalmente, pelo facto de estar instituída, entre o eleitorado, a ideia de que um partido é como o nosso clube. Esta é uma ideia estúpida e, em termos sociais e políticos, verdadeiramente suicida.

É verdadeiramente assustador que o presente e futuro de cada um de nós – e de nós todos, enquanto povo – estejam dependentes de simpatias ou antipatias pessoais, de factores subjectivos e emocionais, e por isso, facilmente manipuláveis, ou da capacidade que um ou outro líder partidário possa ter para intrujar melhor o eleitorado, sem que este possa ou saiba ver e julgar para além das aparências e da poalha espalhada por palavras ditas com a convicção do mais exímio vendedor de banha da cobra.

É verdadeiramente assustador que milhares de eleitores, apenas porque um dia decidiram, por razões puramente aleatórias e emotivas, aderir a um partido, possam a ele fidelizar-se de tal modo que lhe suportem – ou nem sequer as percebam – todas as suas acções, mesmo as que atentam contra os seus interesses mais fundamentais. É pavoroso pensar-se como pode um eleitor do PS ou do PSD aceitar como bom, no seu partido, aquilo que, convictamente, condena no outro. É esta irracionalidade quase imbecil que leva a que os líderes partidários façam gato-sapato do eleitorado e que, no fim, quem fique a rir sejam os grandes beneficiários das políticas que PS e PSD desenvolvem há mais de três décadas, ou seja, o grande patronato, o capital financeiro, em suma, o sistema económico e político que privilegia o capital em desfavor do trabalho.

Por isso, aí estão as gerações dos call-centers, das empresas de prestação de serviços, das cozinhas e balcões dos Mac Donnalds, dos contratos a prazo, da precariedade generalizada, do desemprego, da vida sem horizontes, dos ordenados miseráveis, também chamadas as gerações dos Quinhentos (euros), cada vez mais dependentes da casa dos pais e de trabalhos ocasionais. São, na maioria, peixinhos de aquário que não sabem, sequer, que há rios e mares. Nisso os transformaram.

A abstenção, mais uma vez, venceu a eleições, com uma expressão de quase 40%. E apesar de saber que vou arrepiar os defensores do «o que é preciso é votar», não hesito em dizer que compreendo melhor um abstencionista do que um eleitor desempregado – ou um trabalhador a prazo – que tenha votado PS ou PSD. Se alguém não foi votar (e foram mais de dois milhões) é porque, na maioria dos casos, nenhum partido e nenhum político foram suficientemente capazes de o convencer a isso.

Feitas as contas, Sócrates vai tentar formar governo. A perda da maioria absoluta e de meio milhão de votos vai pôr-lhe, para já, freio nos dentes. Não vejo, à esquerda, quem se disponha a dar-lhe a mão, não só porque, em termos ideológicos, isso significaria que alguém iria negar os seus princípios ideológicos (ou Sócrates, ou a esquerda), e porque dar a mão a um homem como Sócrates, significaria, inevitavelmente, sujá-la.

Estará na direita, naturalmente, a salvação do homem da licenciatura fantasma, do Freeport, das falsas declarações sobre as suas verdadeiras habilitações literárias, das trapalhadas da Cova da Beira, do Magalhães encomendado a rapaziada amiga lá do seu partido (por acaso, a contas com o Fisco), das pressões sobre a justiça e a comunicação social e de todo um rol de trafulhices e mentiras que a história, um dia, julgará.

Mas é preciso ter em atenção que a política, em vez de ser uma arte nobre de servir um povo e um país, é um campo armadilhado. É sempre o poder que está em causa, e nunca os interesses nacionais. Cada manga esconde uma faca, cada sorriso um veneno. Sócrates, como sabemos, está cheio de podres. Não serão as questões políticas que presidirão às negociações que se seguirão, mas os esqueletos que os armários partidários tentam esconder a todo o custo. E, lá por trás, está o verdadeiro poder – o poder económico – a puxar os cordelinhos.

Resumindo: deixarão Sócrates entregue à sua sorte, ou haverá alguém disposto – ou abrigado – a sujar as mãos nas dele?

Entretanto, o país continuará a apodrecer. Coisa que, como vimos, pareceu não incomodar nada mais de três milhões e setecentos mil eleitores.

(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 30/09/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PEQUENA LIÇÃO DE VOTO

No próximo domingo, finalmente, Portugal vai a votos. Passada a agitação da campanha, onde todos os candidatos são os melhores políticos do mundo e apresentam ao povo as receitas infalíveis que salvarão a Pátria do atoleiro para onde a maior parte deles a meteu, seguir-se-á a euforia dos vitoriosos, a alquimia da transformação, pelos vencidos, das derrotas em vitórias e, naturalmente, a análise, pelos especialistas do costume, do futuro político imediato do país. Mais lá para a frente, discutir-se-á a formação do novo governo e as caras dos figurões que, saltando dos seus tachos actuais, vêm preparar os tachos que abocanharão quando, daqui a uns tempos, deixarem as funções.

De tudo o que se passou nas últimas semanas, ficarão cinzas que os ventos outonais levarão. Daqui a meses, os que votaram nos que tiveram mais votos, se já estavam desempregados, desempregados continuarão. Se estavam a prazo lá no empregozinho, a prazo continuarão, se não tiverem ido já para o olho da rua. Se já não podiam pagar a casa e o carro, em breve ficarão sem uma coisa e outra. Mas andarão felizes da vida, porque votaram em quem ganhou. «Ganhámos!», pensarão os idiotas. Outros, como sempre fazem, dirão que nunca mais se deixarão enganar, mas, quatro anos depois, lá voltam a dar a mesma cabeçada. Ou parecida.

Quero eu dizer que, daqui a dois ou três meses, todos estarão esquecidos das promessas eleitorais e das razões porque votaram assim ou assado, e lá andarão eles na vidinha triste de contar os dias que faltam para o fim do mês, num estado perfeitamente vegetativo, nem as orelhas mexendo para sacudir as moscas, como até o mais indolente dos jumentos sabe fazer.

Estou a falar, é claro, na presunção de que o PS ou o PSD ganhem as eleições, com ou sem maioria absoluta, e a esquerda não tenha uma votação que, pela sua grande expressão, seja um sintoma claro de insatisfação popular e possa pôr em sentido os que se querem estabelecer como donos do regime. Também a abstenção e os votos em branco, se forem significativos, poderão representar um forte estremeção na lógica perversa que nos pretende fazer crer que só pelo voto é que isto lá vai. Como as coisas estão, o voto é sempre mais útil a quem o pede do que a quem o dá, pois confere autoridade democrática aos aldrabões que o recebem. Podem aldrabar mais à vontade. Com os milhões de votantes a ver navios.

Verdade seja dita, os únicos que, nos últimos trinta e três anos, têm ganho bastante com a maneira como os portugueses votaram, foram os Belmiros, os Amorins, os Espíritos Santos, os banqueiros em geral e as legiões de boys e girls que, agarradas como lapas aos partidos do poder, sacam o que podem até o poder mudar de mãos. E, naturalmente, os eleitos pelos aparelhos partidários, que pulam dos poisos políticos para os poisos empresariais, as duas faces de uma moeda chamada democracia capitalista. Ou burguesa. Sem esquecer que, pelo meio, embolsam reformas devidas por tanto sacrifício…

Não preciso de vos dizer que, naturalmente, irei votar. Mas não vos direi em que força o farei, porque isso significaria um claro apelo ao voto e, consequentemente, um abuso do privilégio que tenho de aqui poder estar para, como cidadão, falar das minhas preocupações sociais. Não estou aqui em nome de nenhuma força partidária, mas na condição de homem livre que vive e pensa de acordo com os seus ideais.

E deixem-me que vos diga que, sem querer ser exemplo para ninguém, se todos os portugueses pusessem, antes das suas simpatias ou antipatias partidárias, aquilo que são os seus interesses e direitos enquanto elementos integrantes da sociedade – e onde deveriam ser quem mais ordena – nunca certos senhores e senhoras teriam alguma vez deitado mãos às redes do poder político, fosse a nível nacional, fosse a nível local.

E falo nisto porque, como já tenho dito, os tempos que correm obrigam-nos a pesar dois factores para podermos decidir como votar de acordo com o que nos interessa, e não como interessa a quem nos pede o voto.

Esses dois factores são: o factor político, isto é, qual é o modelo de sociedade que resultará das ideias dos candidatos, ajudando muito, para esta análise, aquilo que fizeram anteriormente, caso já tenham detido o poder; e o factor pessoal, ou seja, o seu carácter e o seu temperamento. A sua personalidade, em suma.

Para mim, é impensável votar num político que defenda um modelo de sociedade onde seja o poder económico a condicionar a vida dos cidadãos. Isto é: uma política que coloque a população ao serviço dos interesses económicos, em vez de colocar a economia ao serviço dos cidadãos, conduz ao que temos vindo a sofrer ao longo das últimas três décadas, como sofrêramos já durante o fascismo. Conduz às desigualdades sociais, ao desemprego, ao trabalho precário, aos baixos salários e reformas, a uma política de Saúde de «fecha a porta», a uma política de Educação embrutecedora, ao inquinamento da Justiça, designadamente à impunidade dos crimes e criminosos de colarinho branco, ao consequente aumento da criminalidade, em geral, à corrupção a todos os níveis, à falta de valores éticos. Em resumo, à desmoralização colectiva, propícia a todo o tipo de desmandos e, finalmente, à total decadência.

Veja-se o que aconteceu com a recente crise financeira, quando se fez recair sobre os trabalhadores de todo o mundo as consequências dos desmandos e desbragamento dos grandes capitalistas, que, apesar disso, mantiveram as suas fortunas pessoais e já voltaram aos andares do topo do poder económico – salvo o caso do vigarista freelancer, senhor Madoff, a quem se deixou durante anos encher a arca, mas que nunca fez parte da elite financeira de um sistema que faz praticamente o mesmo que ele fez, mas de costas bem quentes pelo poder político.

Mas, para mim, não basta um político defender – ou dizer que defende – altos valores sociais, proclamando-se «socialista» e de esquerda, como até Sócrates, para nos fazer rir um pouco, diz que é. É preciso que as suas práticas políticas não o desmintam. Ora, Sócrates e o PS já governaram e já mostraram o que são capazes de fazer – e, também, o que são incapazes de fazer. Tal como Manuela Ferreira Leite e o PSD, que, louve-lhes a honestidade, nunca se apresentaram ao eleitorado como sendo de esquerda ou defensores de políticas mais ou menos socialistas. Aí, pelo menos, não aldrabam.

E agora vem, para mim, a questão decisiva. Se é importante que um político que queira o meu voto me faça crer que vai pôr em prática as políticas que eu acho justas e necessárias – e, seguramente, não são estas que temos sofrido – mais importante ainda é eu não duvidar que seja uma pessoa honesta e íntegra.

Ora, se o PSD e Ferreira Leite não me servem, em termos das políticas que defendem e têm praticado, Sócrates e o PS não me servem porque, para além disso, a única garantia que me dão é que, com eles no poder, a verdade, a honradez, a decência, o respeito pela liberdade e demais valores pelos quais se pautam as pessoas e as organizações dignas e merecedoras de respeito e confiança, levaram tratos de polé e passaram a ser coisas inexistentes a nível do exercício do poder político. Para além das trafulhices das suas vidas privadas.

Um partido onde militam – ou militaram – Melancia, Abílio Curto, Fátima Felgueiras, Monterroso, Soares (pai e filho), Armando Vara, Jorge Coelho, Vitorino, Pedroso e, claro, José Sócrates, entre muitos outros, não pode merecer o voto de quem, para além da própria política, exige que ela seja interpretada por quem esteja acima de qualquer suspeita.

E se não vos digo onde voto, já todos ficam a saber em que partidos não votarei – e a que tipo de pessoas jamais confiarei o meu voto.

Seja em eleições legislativas, seja em eleições autárquicas.


(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 23/09/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

domingo, 20 de setembro de 2009

SÓCRATESvsSÓCRATES

O debate que faltava ver.

video

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

VARRER O LIXO

Abro esta crónica com a questão que aqueceu o programa Provocações, na semana passada. Uma ouvinte não apreciou a maneira muito cordata como Jerónimo de Sousa se opôs a Sócrates. Na sua opinião, aquilo mais parecera uma conversa de amigos. Chegou a sugerir que, após o debate, teriam ido os dois beber um copo. Se bem percebi, quis dizer que esperava de Jerónimo de Sousa, em nome do povo que o PCP garante defender intransigentemente, uma atitude de justa indignação e necessária denúncia, confrontando Sócrates com todas as malfeitorias praticadas durante o seu governo. Como, seguramente, teria feito Álvaro Cunhal, disse essa ouvinte.

Esperaria ela que Jerónimo de Sousa, frente ao homem e ao político que agravou todos os problemas existentes em Portugal e que, pelo seu pendor para a trapaça e para a arrogância fez alastrar pelo país um sentimento de desmoralização e perda de valores éticos e democráticos, aproveitasse para, em nome dos portugueses desempregados ou sem salário digno, sem dinheiro para medicamentos, sem reformas decentes, sem condições para constituir família, por viverem de trabalhos precários, ou forçados a emigrar para terem rendimentos decentes – e chegam aos muitos milhões os portugueses nestas várias condições – ser o porta-voz desta gente vilipendiada pelo governo socialista, ser o rosto dos sem esperança, dos injustiçados, dos que já não sabem como vai ser o dia de amanhã, ou sabem que vai ser pior do que o de hoje.

Confesso que também era isso que eu esperava. Que Sócrates fosse posto a nu e confrontado com todas as suas políticas criminosas e – porque não? – com todas as trapalhadas em que esteve (e está) envolvido, impróprias de gente honrada, quer na esfera pública, quer na privada. Vi, há dias, o vídeo desse debate e reparei que Jerónimo foi muito político. Não fez ondas. Não encurralou o «animal feroz» – ou o Lobo Mau – que anda agora disfarçado de Capuchinho Vermelho.

Afinal, não há fome no país? Afinal, não morreu ninguém às portas de urgências fechadas ou à espera de socorro? Afinal, não passou a ser moda parir nas ambulâncias, ou ir parir a Espanha? Não florescem, agora, as clínicas privadas, precisamente nos sítios onde Sócrates mandou fechar maternidades, urgências e serviços de saúde públicos? Não morrem portugueses à espera de uma operação, especialmente centenas de doentes oncológicos? Não há falências em série e não asfixiam as pequenas e médias empresas? Afinal, não há instabilidade de emprego, e desemprego para muito mais de meio milhão de portugueses? E onde meteu Sócrates os mais 150 mil empregos? Afinal, não aumentou a criminalidade e a insegurança? Afinal, a corrupção não se tornou um modo de vida, especialmente ao nível das várias estruturas do poder, enchendo os bolsos dos corruptos e os sacos azuis dos partidos, e a grande roubalheira, de colarinho branco, não é compensada com milhões de euros pagos por nós? Então, não nos afastámos mais da média europeia e não aumentou o fosso entre ricos e pobres? Então, com Sócrates, não passaram os patrões a fazer gato-sapato dos trabalhadores, com um Código do Trabalho pior do que aquele que Bagão Félix cozinhou – e que nem Salazar alguma vez se atreveu a imaginar? Então, não está a pata do PS a esmagar a liberdade de informação, comprando, ameaçando ou neutralizando as vozes incómodas? Não continuam os boys e as girls socialistas a banquetear-se com os tachos a granel que as mãos-largas do poder cor-de-rosa lhes reservam? Enfim – e afinal – não estão o povo e o país piores, em todos os sentido, incluindo o dos valores, muito pior agora do que estavam há quatro anos?

E mais: quando é que Portugal teve um primeiro-ministro envolvido em tantas situações comprovadamente ilícitas e indubitavelmente imorais, incompatíveis com o cargo e, principalmente, impossíveis de acontecer com alguém que faz do carácter, da dignidade e da ética as bandeiras da sua vida pública e privada? Não é Sócrates um exemplo chapado da mais pura charlatanice, pontapeando a verdade a torto e a direito? Quem é que, do cidadão comum, sendo lúcido, descomprometido e sério não gostaria de estampar estas verdades na cara sem vergonha do embusteiro que comanda o país? Eu, meus amigos, adorava fazê-lo.

Não quis ir por aí Jerónimo – como também não foram os outros líderes partidários – e creio que os especialistas e conselheiros de imagem lá saberão porquê. Uma coisa é certa: neste ciclo de debates, em nome do politicamente correcto e da imagem que se julga necessário transmitir para a opinião pública, foram todos muito iguais. O sentir – posso até dizer: a revolta – do povo esteve ausente. Não teve eco pela boca de ninguém. Resultado: milhões de portugueses – entre os quais eu – não ouviram dizer a Sócrates o que eles gostariam de lhe ter dito. Foi pena, pois essa desilusão pode levar muita gente a não se sentir identificada com o actual quadro partidário e, por consequência, a não votar, ou a votar branco ou nulo.

Mal esta ouvinte tinha expressado a sua opinião, logo interveio outra, insurgindo-se com o que ouvira. Que Jerónimo estivera como deveria ter estado, que não lhe ficaria bem ir para ali partir a loiça, dando, enfim, um ar de arruaça ao debate. Que não era aquele o lugar indicado para isso.

Quanto a mim, foram duas opiniões respeitáveis. Cada um de nós tem a sua visão das coisas e, naturalmente, enfeita as suas ideias com as palavras e as imagens que entender. Tudo está bem se, como é próprio em democracia (ou esta coisa a que chamamos democracia) cada um se limitar a expressar os seus pontos de vista. O que pode não estar totalmente bem é quando se entra no campo do ataque pessoal, absolutamente desnecessário, principalmente quando, como me pareceu ser o caso, as duas ouvintes gostariam de ver Sócrates derrotado e Jerónimo reforçado.

Guardem-se, então, energias para o inimigo comum. Quanto a mim, recordo que me limito a expressar aqui os meus pontos de vista, não me competindo mandar calar ninguém (como a primeira ouvinte pareceu pretender), coisa que ficaria mal em qualquer lado, principalmente na Rádio Baía, que tem, neste programa, um espaço aberto a quem quiser dizer, civilizadamente, o que muito bem entender.

Seria bom que todos tivéssemos aprendido com este episódio, não tendo medo de dizer o que pensamos, sabendo sempre ouvir o que os outros dizem, e sabendo concordar ou discordar sem entrar no campo do confronto pessoal mais ou menos agressivo, ou do insulto. Quanto ao resto, é da discussão que nasce a luz. E, pensando bem, é nestes momentos de maior calor que todos nos ficamos a conhecer melhor.

Mas vamos à vida. Depois dos debates a dois, com todos os intervenientes muito bem penteados e maquilhados, cheios de boas maneiras e sorrisos perfeitamente ensaiados e meramente de circunstância, a campanha está aí. Cumpra-se, então, a liturgia. Vá-se às urnas como os católicos vão a Fátima, ou os muçulmanos vão a Meca. Se alguém espera um milagre, desiluda-se. O povo ainda não percebeu – por preguiça, descrença, medo atávico ou pura indigência mental – que deve deixar-se de perigosas fidelidades partidárias ou simpatias pessoais (uma espécie de estúpida clubite em versão política) e correr com aqueles que, servindo-se do seu voto, se têm limitado a iludi-lo e a explorá-lo, década após década.

Há, então, que escolher novos rumos e deitar fora a quinquilharia política que por aí anda há mais de 30 anos a encher-se e a encher as arcas do grande capital, enquanto esvazia os bolsos de quem trabalha. E nisto, o PS é especialista.

Entretanto, eu falo no que se quer esconder: Por exemplo: Sócrates e o PS, 35 anos depois da ditadura, da Pide e da Censura, calaram o Jornal de Sexta, da TVI, e Eduardo Moniz e Moura Guedes foram eliminados. Bem podem chorar lágrimas de crocodilo e bradarem inocência, porque nem o mais néscio de entre os néscios (desde que não seja um socretino puro, é claro) é que acredita que o bando socialista nada teve a ver com o assunto.

Pode-se gostar ou odiar Manuela Moura Guedes, mas sem ela não se tinha sabido nem da missa a metade do caso Freeport, especialmente do DVD de Charles Smith, onde acusa Sócrates de corrupto, nem que havia um «Gordo», que por acaso também é primo de Sócrates, e que a PJ fotografou a sair de um balcão do BES com uma mala, depois de uma avultada verba ter sido enviada pelos homens de Londres. Sem Moura Guedes, a Justiça já tinha enterrado o caso, porque a magistrada Cândida Almeida, uma socialista dos quatro costados, não queria saber do DVD para nada e o Procurador-Geral da República até estava farto do caso «até aos olhos».

Na verdade, só há uma coisa que eu não percebo nesta altura. É a razão pela qual o Presidente da República se tem remetido a um misterioso silêncio sobre as trafulhices de Sócrates, e os lideres partidários do PSD, PCP, BE, CDS/PP e demais classe política não dizem, sem papas na língua, que um homem como Sócrates não pode estar à frente do governo de um país que se diz livre e democrático. Muito menos recandidatar-se ao cargo. Porque se calam todos?

Por isso, devemos nós, em 27 de Setembro, varrer o lixo. Sócrates, claro.

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 16/09/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DERROTAR SÓCRATES


– Uma questão de moral

Parece ser de bom-tom – e politicamente correcto – que se evite falar no temperamento e carácter dos políticos, como se um político não fosse, exactamente, um produto daquilo que é como indivíduo. Mas não. Diz-se por aí que o político deve ser apenas avaliado enquanto tal – ou seja: pelo que propõe fazer, faz, ou deixa de fazer pelo seu país – e que a sua índole está fora de questão.

Esta libertina opinião tem vindo a fazer escola nos últimos tempos, muito especialmente depois dos vários escândalos em que o nome de José Sócrates aparece envolvido. Dizem essas almas puras e bem pensantes – e, provavelmente, ainda melhor pagas – que o importante é debater ideias e princípios programáticos, para que o povo possa escolher as melhores soluções de governação, pondo de lado a craveira moral de quem as emite e propõe concretizá-las. Não dizem, mas está implícito nesta licenciosa perspectiva, que qualquer crápula pode merecer a confiança popular, pois o fundamental é o seu discurso político. As suas ideias. Ou, se quisermos, a sua capacidade de manipulação. É assim em Itália; parece ser assim em Portugal.

Peço licença para discordar, mas não vou por aí. Não me basta saber o que cada um destes cavalheiros pretende, mesmo que não soubesse, como sei, de cor e salteado, o que propõem. Para mim, é importante saber se um candidato a governar o meu país, ou a ocupar um qualquer lugar no aparelho do Estado, é uma pessoa decente e confiável, ou não passa de um vulgar sacripanta, capaz da maior pulhice.

Já não bastava que cada campanha eleitoral fosse – ou tentasse ser – uma monumental lavagem ao cérebro de cada um de nós, uma fastidiosa repetição de todas as campanhas eleitorais anteriores, uma farsa autenticamente carnavalesca onde, como disse – e bem – Jerónimo de Sousa, os partidos do poder põem o conta-quilómetros a zero?

Já não bastava o ridículo de, como já tenho dito, todos agora terem grandes ideias para governar o país, esquecendo-se que, quando o governaram, o deixaram sempre pior do que estava? Já não bastava, em cada período de caça ao voto, se vestirem de anjinhos papudos entoando as mais luminosas promessas, que depois, descaradamente, ignoram?

Então, como se isto já não bastasse, ainda querem que ignoremos o carácter desta gente, os seus valores morais, a sua integridade – ou a falta dela?

Tenham paciência, mas não alinho. Não aceito mordaças. Eu preciso de saber se um qualquer candidato é uma pessoa íntegra, séria, acima de qualquer suspeita. Mais do que saber aquilo que o político diz, é necessário saber aquilo que o político é, sem o que a sua palavra pode não valer absolutamente nada. Por isso, para mim, a integridade é mais importante do que a ideologia. Não sou como muita gente, neste país, que acha que a corrupção só é condenável nos outros; que um pedófilo pode sê-lo, se for da sua cor partidária; que os oportunistas, os incompetentes, os trafulhas ou os poltrões são aceitáveis, desde que sejam da sua família política. Não, meus amigos, esse não é o meu caminho.

Posto isto – e só enfiou a carapuça quem achou que ela lhe ficava bem – é inevitável que traga à baila o «senhor engenheiro», quanto a mim o maior embuste político que conheci em toda a minha vida. O político que pior fama deu à já de si mal afamada política.

Disse atrás que, para mim, é importante saber se um candidato a governar o meu país, ou a ocupar um qualquer lugar no aparelho do estado, é uma pessoa decente e confiável, ou não passa de um vulgar sacripanta, capaz da maior pulhice. Sendo assim, se outras razões não tivesse – e tenho todas as razões possíveis e imaginárias – para não votar PS, bastava ser o «engenheiro Sócrates» o seu candidato natural a primeiro-ministro para, por razões puramente éticas, não confiar o meu voto a tal partido.

E por muito que custe aos papagaios e araras que por aí se esforçam em calar os que trazem à discussão os podres do «engenheiro», eu insisto em recordar que ele tem no seu cadastro anotações incompatíveis com as funções que desempenha e quer continuar a desempenhar. Isto é: mesmo que as suas propostas políticas fossem coisa em que se pudesse acreditar, ele não preenche os requisitos necessários – face ao que já ficou provado do seu temperamento e do seu carácter – para ocupar qualquer cargo público, muito menos o de primeiro-ministro.

Realmente, não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que mentiu deliberadamente à Assembleia da República sobre as suas habilitações literárias. Para além da mentira, em si mesma, sobressai a ânsia pacóvia de tentar parecer o que não se é, denunciadora, só por si, de um carácter muito deficiente. Muito menos o pode ser se, como ficou provado, alterou grosseiramente essa declaração, para a adaptar à realidade e esconder, desse modo, o embuste inicial. Isto é: tentou esconder a mentira com uma grosseira adulteração.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que conseguiu uma licenciatura de forma absolutamente duvidosa e peregrina, só não se podendo dizer que foi única em Portugal porque é sabido que a rapaziada do PS usava a Universidade Independente para obter habilitações a martelo. Recordo-me que um antigo vereador socialista da Câmara Municipal do Seixal mo confirmou abertamente, tendo ido ao extremo de me convidar para o baile, garantindo que também eu poderia licenciar-me a troco de 400 contos, pagáveis em prestações.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que se dá mal com a verdade e se deixa envolver em processos esconsos, chegando ao ponto de negar conhecer o homem que haveria de passá-lo, por atacado, a quatro disciplinas no caso da sua famosa licenciatura (o professor Morais), de quem é, afinal, testemunha no processo judicial do escabroso caso do aterro da Cova da Beira.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que participou em esquemas de licenciamentos fantasmas, no concelho da Guarda, em que processos com pareceres negativos de várias entidades regionais, ou mesmo embargados, eram aprovados em prazos recordes, variando entre os 8 e os 15 dias e, nos casos mais espantosos, em apenas um dia. Bastava que o engenheiro-técnico José Sócrates assinasse os projectos.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que entrega a uma firma, sem concurso público, a comercialização e distribuição de um computador da Intel, que se pintou de azul e baptizou com o nome de Magalhães, sendo que essa firma está a contas com o fisco e pertence a camaradas do seu partido. Foram milhões de euros transferidos dos cofres do Estado para os cofres da empresa, num autêntico passe de mágica.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que avaliza a criação de uma Fundação para as Comunicações, onde o estado investe milhões de euros, e que ninguém sabe o que faz, como faz, e cujas contas ninguém fiscaliza. Sabe-se, apenas, que esta fundação, tão fantasma como os licenciamentos da Guarda, esteve ligada aos famosos Magalhães.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal o homem que, enquanto responsável pelo Governo, permite que a comunicação social recolha imagens da distribuição dos computadores Magalhães numa escola e da inauguração de um hospital, e depois os computadores sejam retirados às crianças, e as camas e demais equipamentos sejam retirados do hospital, ficando apenas as paredes.

Não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem cujo nome está irremediavelmente ligado ao caso Freeport, a quem um dos arguidos chamou corrupto, e onde figuram, como arguidos, outros camaradas socialistas, sendo ele, na altura dos acontecimentos, o primeiro responsável pela luz verde que permitiu a aprovação da Declaração de Impacte Ambiental, que abriu as portas ao licenciamento do empreendimento. Sem esquecer a implicação directa de três dos seus familiares em todo o processo.

E não pode ser primeiro-ministro de Portugal um homem que, lidando pessimamente com a verdade, queira impedir os outros de a saber. Fascismo à parte, para o qual a verdade era, apenas, a verdade oficial – e daí a Censura – nunca ninguém, como José Sócrates, atentou tanto contra o direito a informar e a ser informado.

Por isso, impedir que Sócrates continue a governar não é só um imperativo político. É, antes de tudo, um imperativo ético e cívico.

É, em suma, uma questão de moral.

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 09/09/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CEREJAS SEM CAROÇO


- Tragicomédia em quatro actos

I Acto – A palhaçada do costume

Abriu a caça ao voto. Basta ter a televisão ligada para se perceber o ruído das máquinas partidárias. É o ritual do costume. Nesta época, os partidos que têm governado o país aparecem de roupa limpa e cara e mãos lavadas. O passado, aliás, não existe. Nunca existiu. Ninguém tem culpas no cartório, ninguém é responsável pelo estado lastimável a que o país chegou. O passado não é com eles. Só o futuro.

É entusiasmante verificar, agora, como todos eles sabem como se deve governar o país. Como se vai acudir à pobreza, cuidar da Educação, melhorar os cuidados na Saúde, garantir uma Segurança Social digna desse nome, aumentar a produção de riqueza e distribui-la melhor. Acabar com o desemprego e com o trabalho precário. É preciso é que votem neles. Desta vez é que vai ser. Não falha.

É verdade que as coisas estão mal – estão péssimas, mesmo – mas isso é culpa dos outros. É sempre dos outros. Ou da crise. Ou da crise e dos outros, ao mesmo tempo. Por isso, senhoras e senhores, aqui estamos nós para vos servir, rapazes e raparigas capazes, honestos, iluminados, competentes e totalmente dedicados à causa pública, a pedir o vosso voto para, em troca, vos resolvermos todos os vossos problemas. Ou quase todos, porque perfeito… só Deus, nosso Senhor.

É a democracia no seu esplendor. Ou seja: quando milhões de adultos são tratados como crianças atrasadas mentais… e parecem não dar por isso.


II Acto – O mistério das escutas

O primeiro sinal foi dado pela presença (inexplicável), em certa comitiva presidencial, de um elemento estranho. Era um boy socialista, que ninguém tinha convidado, e que se dedicava a ver e ouvir, com muita atenção, tudo o que se passava, e que, pelo seu comportamento, deu claramente a entender que era os olhos e os ouvidos do Partido Socialista. Como o governo estava devidamente representado por um dos seus ministros, evidente se tornou que a comitiva e, principalmente, o Presidente da República, estavam a ser alvo de marcação cerrada.

Seguiu-se a rábula das escutas. O PS descobriu – ou disse ter descoberto – que assessores de Belém haviam colaborado na elaboração do programa eleitoral do PSD. Tanto bastou para constar que Belém estava sob escuta. Para ser franco, tanto se me dá que os assessores de Belém participem na elaboração do programa eleitoral do PSD, como imaginar que assessores do governo participem na feitura do programa eleitoral do PS.

E para ser ainda mais franco, não me custa nada acreditar que o PS ande a escutar toda a gente, pois estou farto de saber o que a casa gasta. Eles são todos muito democratas, muito sérios, muito amigos da liberdade e, principalmente, incapazes de violarem os princípios constitucionais, mas Sócrates já mostrou, sem margem para dúvidas ou hesitações, que não olha a meios para atingir os seus fins.

Dali, espero tudo. Como se verá no próximo acto.


III Acto – O regresso da PIDE?

A vocação pidesca do PS não é, para mim, nenhuma novidade. Nem o seu gosto pela mais reles bufaria. No Arsenal do Alfeite, na Lisnave, na Siderurgia Nacional ou na Sorefame, por exemplo, eram os activistas sindicais do PS que entregavam às administrações e aos conselhos de gestão as listas com os nomes dos trabalhadores que deveriam ser dispensados na primeira oportunidade, ou colocados na prateleira, fosse por se oporem às políticas de privatizações, fosse por liderarem – ou apoiarem – as lutas reivindicativas. Fosse, mais singelamente, por serem comunistas ou afectos à Intersindical.

Mais recentemente, ficou célebre a matrona socialista que lidera a Direcção Regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, por ter denunciado as opiniões do professor Charrua a respeito de Sócrates. Lembram-se?

Agora, e de acordo com o jornal Correio da Manhã, «os serviços secretos estão a celebrar protocolos com os organismos públicos com vista à colocação de agentes do Serviço de Informações da República e do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, com identidade codificada, em instituições do Estado».

Aí está, com toda a clareza, a vocação ditatorial de Sócrates. Para que servem «espiões», com nomes falsos, disfarçados de trabalhadores comuns, em instituições do Estado? Será porque se supõe que é por dentro, pelos locais de trabalho, que a segurança nacional é posta em causa? Não me façam rir!

O que Sócrates e o PS querem – tal como Salazar quis – é controlar pelo medo e travar pela repressão quaisquer veleidades de contestação ao seu poder e às suas políticas.

Depois das escutas telefónicas e dos chips nos automóveis – um grande negócio, para além de ser um atentado à nossa privacidade – e de um conjunto de medidas avulsas que, sob a desculpa do combate á criminalidade, nos afectam a todos (aliás, se quisessem combater a sério os criminosos, não os punham em liberdade tão depressa nem colocavam tantos obstáculos à sua prisão e julgamento), vem agora Sócrates recuperar a polícia política do antigamente. Se há por aí quem se espante, eu não.

E não me digam que a medida é bem intencionada, pois é tomada em vésperas de eleições, ou seja, perante a possibilidade de outra força política ocupar o poder. Só pensará isto quem desconhecer os meandros da política e os seus alçapões. Neste momento, toda a estrutura dos serviços secretos, quer em termos de organização, quer de quadros, é controlada pelo PS. E fica tudo dito.


IV Acto – Cerejas sem caroço

No PS, contudo, nem tudo cheira a tragédia. Também há a parte ridícula, cómica, quase incrível. Que, apesar disso, não deixa de ter um acentuado matiz burguês. E matriz também. Gente fina é outra coisa, não é verdade?

Ora, acontece que uma menina, de seu nome Carolina Patrocínio, é a mandatária do PS para a Juventude, nas eleições que aí vêm. E acontece, também, que a dita menina não gosta de comer cerejas com caroço, nem uvas com grainha. Vai daí, encarrega a sua empregada doméstica de retirar os caroços às cerejas e as grainhas às uvas, que assim degusta sem medos de se engasgar, indo-lhe ao goto. E tudo isto ela nos revelou com uma candura de loura tão loura, que até as louras das anedotas abriram a boca de espanto.

Com grande parte dos jovens deste país desempregada, ou a recibos verdes, ou com trabalho precário, não podendo, por isso, aceder a cerejas ou a uvas – e, muito menos, a empregadas domésticas – a menina Carolina Patrocínio é, de facto, uma excelente representante da juventude.

Benza-a Deus, menina Carolina. Ele deu-lhe em esquisitice o que lhe tirou em inteligência, não foi?

Deixe lá. Não se pode ter tudo…


(João Carlos Pereira)


Lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 02/09/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).