quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A FOME, OS DEUSES E OS GATOS

O senhor governador do Banco de Portugal, cujo vencimento e respectivos aumentos são decretados por ele, e que, muito patrioticamente, ganha mais que o seu homólogo norte-americano, apesar de só Nova York ter mais habitantes do que Portugal inteiro, pediu realismo e aconselhou que os aumentos salariais não fossem além de 1,5%.

Este socialista – ou dizendo melhor: este militante do PS, que é uma coisa completamente diferente – deve pensar que todos ganham o que ele ganha. Se assim fosse, um aumento de 1,5% não seria nada mau. E quanto ganha o senhor governador do Banco de Portugal? Isso é coisa difícil de saber, porque os vencimentos dos senhores que governam aquela instituição pública… não são públicos. Ou seja: nós pagamos-lhe, mas tenta-se impedir que saibamos quanto é que lhe pagamos. Compreende-se. O descaramento, a desvergonha e a bagunça são de tal ordem, que as cautelas nunca são demais, não vá o povo, um dia destes, acordar e pedir contas. È difícil, mas pode acontecer.

Sendo assim, os últimos dados que tenho disponíveis remontam a 2005, e dizem-me que ele ganha – ou ganhava, se ainda não se aumentou desde aí, coisa em que não acredito – mais de 280.000 euros por ano, sem contar com as várias mordomias inerentes ao cargo. Feitas as contas, são. Em números redondos, 24.000 euros por mês, algo que ronda, na moeda antiga, os 5.000 contos. Um aumento de 1,5% sobre 5 mil contos, vale cerca de 75 contos, o que é superior à maioria das reformas e pensões pagas nesta coisa fétida a que chamamos país.

Já percebemos, então, o que quer dizer a palavra socialismo para o senhor Vítor Constâncio, como percebemos muito bem o grande socialista que ele é. A sorte dele – e de muitos como ele – é que o povo é sereno, resignado, cabisbaixo, medroso, algo cobarde e – diga-se a verdade – é aquela «enorme e possante besta» que, um dia, lhe chamou Erasmo de Roterdão, para explicar a incompreensível mansidão das massas face aos desmandos das elites possidentes.

Vem isto a propósito de duas coisas. A primeira, prende-se com as declarações do médico fundador da AMI, Fernando Nobre, durante o congresso dos economistas que decorreu no Funchal. Fernando Nobre, que é dos poucos portugueses vivos que merece o meu respeito, falava para uma plateia onde se destacavam antigos, actuais e, provavelmente, futuros ministros, tudo gente muito sábia e de mãos limpas, quando disse, entre outras coisas, que «é uma vergonha a pobreza que temos em Portugal», perguntando depois aos presentes quem é que, naquela sala, conseguia viver com 450 euros. Não vi, mas posso jurar, que os dedos médios daqueles senhores se esticaram de imediato, enquanto o indicador e o anelar se curvavam. E se não fizeram o gesto, certamente que o imaginaram.

Fernando Nobre lembrou que sem os apoios sociais e os diversos subsídios, a pobreza em Portugal não estaria nos 18% oficiais, mas nos 40%, o que significa que dois em cada cinco portugueses estão em risco de pobreza. Assim, todos os dias, em Portugal, o sistema económico e a governação que o serve produzem novos pobres, entre os quais estão os jovens com menos de 30 anos, milhares com curso superior, mas que, apesar disso, são as principais vítimas do desemprego ou do emprego precário mal remunerado. E muitos milhares de portugueses são obrigados a emigrar para fugirem à miséria, à insegurança e a uma vida sem esperança.

Fernando Nobre não disse, mas digo eu, que se isto está péssimo para dois em cada cinco portugueses, é porque eles não são, claro está, do grupo para o qual isto está muito bom, ou seja, o grupo do senhor governador do Banco de Portugal, ministros, deputados, autarcas, administradores disto e daquilo, presidentes, vice-presidentes e correspondentes assessores (e respectivos e respeitáveis séquitos) todos bem instalados nos vários organismos do Estado ou nas empresas públicas e privadas, apenas sujeitos às alternâncias provocadas pelas mexidas eleitorais, mas logo compensadas com opulentas reformas previamente legisladas.

Fernando Nobre afirmou, em conclusão: «Não aceito esta vergonha no nosso país». Não estive no Funchal, mas sei que todos o aplaudiram, como se aquilo não fosse nada com eles, principalmente com os antigos e actuais ministros lá presentes. Aliás, como sabemos, a pobreza é uma coisa que acontece, assim como uma tarde de chuva, ninguém tem culpa, ninguém pode impedir. É a vida. Só os alucinados ou os revolucionários idealistas mais ou menos líricos é que pensam o contrário: que a pobreza tem autores humanos, a começar por aqueles que detêm as rédeas da economia, os principais meios de produção, o capital financeiro e, para compor o ramalhete, o poder de fazer as leis pelas quais todos se regem.

Por isso, volto a fazer aquela pergunta simples e básica:

- Então, se a situação do país é péssima para a maioria – e óptima para uma minoria – e é essa minoria que tem governado, mandado, pondo, dispondo e impondo, nem assim é possível saber-se de quem é a culpa pela situação que se vive, continuando a fingir-se que estamos a sofrer, apenas, a fúria dos deuses?

Saramago não acredita em Deus. E eu, francamente, não acredito em deuses. Mas, pelos resultados eleitorais, parece que alguém acredita…



A segunda coisa diz respeito aos Gatos Fedorentos, de quem sou um admirador inabalável. As várias entrevistas que esmiuçaram os políticos e outras figuras, tiveram o mérito de colocar questões importantes e actuais, através de um registo de humor inteligente e relativamente cáustico. Mas o que escapou aos Gatos foi que, nas contas finais, se concluiu que tudo está bem quando acaba bem, ou seja, no meio de umas boas gargalhadas e palmadinhas nas costas. Todos saíram risonhos e com os egos em alta, fossem os esmiuçados, fossem os esmiuçadores.

Gente altamente responsável pela miséria que por aí alastra, impostores de alto gabarito, fazedores e aprovadores de leis que transformaram a vida de milhões de portugueses num inferno, indivíduos ao pé dos quais não devemos deixar estar os nossos filhos ou netos, figuras sinistras e imorais da governação passada e actual, todos eles por ali desfilaram com ar de gente normal, simples, impoluta e virgem de qualquer crime.

Compreendo os Gatos. Eles é que não compreenderam que o resultado final seria o branqueamento e a humanização da malandragem que quiseram esmiuçar. Ou compreenderam e não se importaram. Fizeram-nos rir, é certo, mas transformaram os crimes e os criminosos numa anedota bem contada.

Cá fora, no entanto, o desemprego, a fome e a insegurança continuavam a alastrar.


(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 28/10/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DUAS PORTUGUESAS, UM ABISMO

No dia 3 de Junho deste ano, ligou uma ouvinte de Almada, que deu o nome que entendeu dar, dizendo que não gostava deste programa porque aqui só se falava de coisas sérias, e o que os ouvintes queriam era música e muita alegria, para esquecer as desgraças. Acrescentou que estava desempregada.

No dia 14 de Outubro, ou seja, na semana passada, ligou outra ouvinte de Almada (ou seria a mesma?), que também deu o nome que entendeu dar, dizendo que não gostava deste programa porque se limitava a dizer mal do governo e dos capitalistas, perguntando se não seria melhor falar do que se passa no estrangeiro, em vez de estarmos sempre a bater na mesma tecla. Não disse se ainda estava desempregada, mas acrescentou que votara em Sócrates.

Tanto da primeira vez, como desta, a ouvinte não disse que aqui faltávamos à verdade, pois não me acusou de ser mentiroso ou de, alguma vez, ter sido menos objectivo naquilo que afirmo. Limitou-se, por isso, a dar-nos conta do seu desagrado por não gostar de ouvir verdades, coisa compreensível se considerarmos que se trata de alguém que vota em Sócrates. Ora, Sócrates e o PS convivem muito mal com a verdade e são, em Portugal, quem menos interessado está em que falemos de coisas sérias. Da nossa vida.

Não vou cometer a deselegância de sugerir à ouvinte que, se não gosta do que ouve às quartas-feiras, entre as 9 e as 10, na Rádio Baía, sintonize outra estação, coisa que ela, se quiser, poderá fazer sem que lho digam. Pelo contrário, não só gostei imenso do seu telefonema, como até gostaria de com ela falar pessoalmente, para discutirmos os nossos pontos vista sobre a realidade nacional e internacional. E, se quiser, sobre música, mesmo música pimba, se for dessa que a ouvinte é fã. Tendo sempre uma grande curiosidade em falar com pessoas que pensam de maneira diferente da minha, aqui fica o convite, e acredite que seria um prazer conhecê-la: ligue, e deixe-nos o seu contacto. Aceita?

Mas as Provocações das quartas-feiras não despertam reacções apenas nos ouvintes – e nem todos os ouvintes reagem telefonando. Porque a crónica também está disponível na Internet, recebo por e-mail e para o meu telefone muitos comentários e críticas aos temas tratados, servindo de exemplo o texto que vou ler, enviado por uma ouvinte do Barreiro.

«Gostei da sua crónica. Saiba que me identifico consigo nesse ideal de termos um país socialmente mais justo. Pessoalmente, não me incomodo que existam ricos, o que me incomoda é existirem pobres. Julgo que os homens do capital têm que existir e fazem falta, porque é o desenvolvimento da economia que dá trabalho e sustento. Quem investe tem que ter retorno.

No meu entender, criminoso é permitir que a riqueza seja mal distribuída, gerando as tais desigualdades, porque todo o ser humano devia ter direito a uma vida digna, em todos os aspectos. Isso é o que eu tenho constatado nas viagens que tenho feito, mais concretamente na Noruega, Suécia, Dinamarca, Suíça e Áustria, onde não se vê uma casa degradada, gente a pedir esmola ou, sequer, gente mal vestida, onde se respira educação, civismo, cultura, onde as pessoas têm uma assistência social impecável, educação ao mais alto nível de escolaridade, enfim, vamos lá e apetece ficar, para sempre.

Não sei se os partidos que governam estes países são de esquerda ou de direita, nem sequer isso me apoquenta. O que me interessa é que toda a gente vive muito bem. É este bem-estar geral e esta justiça que eu gostaria que estivesse implementada no meu país. Não sei se lá há ricos, talvez haja, mas garanto-lhe que não há pobres.

A não existência de classes sociais é uma utopia que pode fazer parte de um ideal que apadrinho, mas apenas como conceito. Na prática, não funciona. A natureza do ser humano não permite. Infelizmente, é assim. Naqueles países, respira-se civilidade, riqueza, conforto, saúde e constata-se tudo isso em qualquer local onde nos dirijamos, até mesmo na rua, com as pessoas com quem nos cruzamos.

Isto não é um ideal pelo qual sonhamos, sem saber se é praticável ou se faz apenas parte das nossas melhores fantasias. Aquilo é algo de concreto, que olhamos, testemunhamos e sentimos. Os governos são de esquerda? De direita? A nomenclatura não me interessa. Os entendidos chamam-lhes governos social-democratas. Se é isso, eu sou social-democrata. O problema que tenho em Portugal é verificar que os dois partidos que, no fundo, reclamam para si a filosofia da social-democracia, não a praticam. Só praticam a incompetência.

É por isso que não passamos disto, é por isto que eu tenho votado em branco, é por isto que, este ano, até votei CDU, embora não seja comunista. Foi um voto de protesto, admitindo que embora não comungue, porque não acredito que sejam praticáveis, os ideais comunistas, vejo que ainda são eles que lutam, lutam, lutam, contra os problemas resultantes da riqueza ser mal distribuída».

Esta portuguesa, que não estará desempregada e, aparentemente, tem uma condição social e económica razoável, soube manifestar com elevação e honestidade os seus pontos de vista. Parece-me ser uma pessoa lúcida e louvavelmente preocupada com o nosso país e os seus problemas, ao contrário de muitas tontinhas irresponsáveis que por aí circulam ou – o que é pior – de algumas caixas de ressonância do seu partido, que dizem o que as mandam dizer. Esta ouvinte, não. É, seguramente, uma pessoa que pensa com a sua cabeça, e que não se limita a viver a sua vidinha sem tentar perceber que mundo a rodeia. Que não está alienada por opções partidárias, nem sujeita às rédeas do aparelho de qualquer partido. Respondi-lhe assim:

«Cara ouvinte

São quase duas da manhã, e custa-me, por isso, prolongar a escrita. Mas digo-lhe que subscrevo praticamente tudo o que me disse.

Só há, no entanto, uma coisa em que devemos pensar: claro que quem investe deve ter retorno do seu investimento. Mas o investimento, sem a força do trabalho, seria improdutivo. O que está em causa, portanto, é se o investidor pode dispor da vida de quem lhe faz render os patacos investidos, pagando-lhe o que quiser, quando quiser e... se quiser (coisa que por aí vai acontecendo), enquanto ele embolsa lucros de forma absolutamente discricionária. Isto é: há um tecto para os salários, imposto pelos patrões/governo, mas não há um tecto para os lucros.

Ora, considerando-se que o investidor (vulgo, capitalista) depende da força do trabalhador para produzir riqueza, um e outro deveriam ser tratados, pelo poder político, de forma menos desigual, para não dizer, exactamente igual. Mas o primeiro tem a rédea solta, e o segundo tem a rédea curtíssima. Porque será? Eu julgo que é por o poder político estar ao serviço do senhor investidor. São unha com carne.

Depois, também poderia acrescentar que há investimento que deveria ser feito pelo Estado, sendo os lucros gerados aplicados no desenvolvimento do país, em vez de irem parar aos bolsos dos glutões. Estaríamos todos mais prósperos, não lhe parece?

Contudo, como sabe, a União Europeia acha que deve haver menos Estado (quase nenhum) deixando todo o investimento nas mãos da iniciativa privada. Até diz que o Estado não pode fazer isto e aquilo, dado que estaria a violar o princípio da concorrência, pois como não persegue o lucro pelo lucro, pode produzir mais barato.

Espertos, não são? A quem serve esta visão? Adivinhou? Caso não tenha adivinhado, eu digo-lhe: aos senhores empreendedores, também conhecidos como capitalistas.

Agora, dado o adiantado da hora, vou dormir».

Entre a ouvinte de Almada e a ouvinte do Barreiro há, como se viu, um abismo. E só quando o povo português for, em termos de lucidez e sentido de cidadania, mais parecido com a ouvinte do Barreiro do que com a ouvinte de Almada, é que portugueses poderão pensar em deixar de ser o povo explorado e pindérico que hoje é.

Até lá, só há um caminho: avisar a malta.

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 21/10/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

UMA QUESTÃO DE MOSCAS

Passou a febre eleitoral. Um colega meu perguntou-me, logo na segunda-feira, o que pensava eu dos resultados das diversas eleições. Respondi-lhe, apenas, que os tempos que aí vêm serão irmãos gémeos dos tempos que passaram. Bateu palmas. Com mais moscas aqui, ou com mais moscas acolá, a nossa pobre vidinha vai continuar na fossa. No actual quadro político, nada se decide em eleições, salvo a repartição ou manutenção dos tachos entre os aparelhos partidários, tanto no poder central, como no poder local. É por isso que eles lutam, e é para isso que eles nos põem a lutar. Nos dividem. Na verdade, nós só contamos como meros eleitores, aqueles que vão decidir quais dos figurões se vão governar melhor até à próxima ida às urnas. Tem sido assim ao logo das últimas três décadas, assim vai continuar a ser. Há excepções pontuais, eu sei, mas eu não falo de excepções, falo da regra.

Por isso, se alguém está à espera que volte ao tema dos resultados eleitorais, tire o cavalinho da chuva. Prefiro agarrar na deixa que me deu um ouvinte da semana passada, que, basicamente, disse o seguinte: os banqueiros e o grande patronato, onde pontifica o senhor Francisco Van Zeller não desejam – logo, não admitem – qualquer solução governativa que belisque os seus interesses. Será, por isso, à direita que o PS terá que encontrar soluções governativas, perfilando-se o CDS/PP como o interlocutor privilegiado, já que o PSD está em convulsão permanente e sem credibilidade. Direi eu que, um ou outro, tanto faria…

Não podia ser mais claro esse ouvinte, que sempre se confessou um homem de direita. Quem decide o presente e o futuro do país, tal como, até agora, decidiu a nossa vida nos últimos 33 anos, é o poder económico. O povo vota mas, seja lá qual for o resultado, é atrás dos reposteiros da política e nos gabinetes da alta finança que se decide como vai ser. Gostemos, ou não, do que ele disse – e eu não gosto – a verdade é que não podemos deixar de reconhecer que ele se limitou a retratar uma realidade, com a qual diz concordar. E, sem querer, confirmou que as classes sociais existem, apesar de, noutra altura, ter dito que isso eram águas passadas. Mas é assim mesmo que as coisas estão, em Portugal, desde o 25 de Novembro de 1975. Dito de outra forma – ou seja, da forma que eu costumo dizer: o poder económico dita as regras, e o poder político cumpre-as. O resto – incluindo o acto eleitoral – é puro carnaval. Pura liturgia.

O que me distingue desse ouvinte, é que ele aceita – e até concorda – que a política seja precisamente assim, feita à medida dos interesses da alta finança, limitando-se o povo, depois de votar, a comer e a calar. E, claro está, a pagar a factura. Eu defendo que um estado republicano e democrático deve estar ao serviço de todos os cidadãos, zelando para que todos tenham os mesmo deveres e direitos, eliminando assimetrias sociais, económicas e culturais, e a todos garantindo uma vida digna e saudável. Num estado verdadeiramente republicano e democrático – e uma vez que a miséria toca, no Portugal de hoje, à porta de mais de 2 milhões de portugueses, onde há crianças e idosos com carências de toda a ordem, inclusive de ordem alimentar, médica e medicamentosa, subsistindo em condições absolutamente sub humanas, e onde milhares de trabalhadores, apesar de receberem os seus salários com regularidade, são, face à exiguidade das suas remunerações, considerados pobres – deveria ser prioridade da governação resolver estas chagas sociais. Deveria ser, mas não é.

E não é, porque o poder económico – a aristocracia feudal dos nossos tempos – tem a mesma visão elitista da sociedade que existia na Idade Média. A diferença é que, nessa altura, exercia directamente o poder, enquanto que, hoje em dia, o faz através da classe política, com a qual vive na mais profunda promiscuidade. E para legitimar tudo isto, leva-se a plebe até às urnas, na ilusão pueril de que será ali que tudo se decide. Está provado que não.

Mas… porque não será nas urnas que tudo se decide se, teoricamente, tal seria possível? Porque existe uma outra forma de exercer o poder, velha de séculos, mas profundamente eficaz, apesar de invisível. A dominação ideológica, a manipulação das consciências, a hipnose colectiva. Um político, cujo nome agora não me ocorre, disse há anos, para explicar isto, o seguinte: «Fiquem os meus adversários com o exército e a polícia, mas deixem-me ficar com a televisão». Não podia ser mais esclarecedor.

Em consequência, o que vemos? Imaginemos cinco famílias em condições económicas e sociais absolutamente idênticas, sobrevivendo com grandes dificuldades, equilibrando-se dificilmente num cenário de desemprego recorrente, subsídios precários, trabalhos ocasionais, endividamento extremo e asfixiante, enfim, com a corda, literalmente, na garganta. Este é um cenário perfeitamente vulgar e reconhecidamente plausível. E se falo em cinco, poderia falar em muitas centenas de milhares.

Sabemos, também, que é igualmente plausível que essas cinco famílias, aqui dadas como exemplo, tenham opções eleitorais absolutamente distintas. Um vota CDS/PP, outra PSD, outra PS, outra PCP, e outra BE. Sendo essas famílias, em termos económicos, culturais e sociais absolutamente semelhantes, o que as leva a confiar a partidos diferentes, com ideologias, programas e práticas políticas diferentes – e, nalguns casos, até antagónicas – a resolução dos seus problemas? Haverá alguma objectividade nessas diferentes opções? Será, em suma, o interesse próprio, como seria expectável, que baliza as opções partidárias de cada uma dessas famílias, ou serão factores de ordem puramente subjectiva – e predominantemente emocional e afectiva – que determina a tendência do cada voto? O que condiciona – e como se condiciona – o voto de milhões de pessoas?

É evidente que as opções partidárias não são, na esmagadora maioria dos casos, opções racionais. São opções condicionadas por grandes máquinas de propaganda ideológica, visíveis e detectáveis algumas delas – a presença efectiva e contínua de comentadores, analistas e ditos ideólogos ligados aos partidos do sistema – mas invisíveis e dificilmente detectáveis muitas outras, desde a arrumação das notícias nos meios de comunicação social, ao conteúdo dos programas de entretenimento, sempre orientados para a acefalia e a boçalidade, passando pelos argumentos dos filmes e séries constantemente exibidos, onde as chamadas «virtudes» da sociedade de consumo (aquela que enche as arcas do grande capital) está sempre latente. «Esta é a sociedade que temos, tem alguns defeitos, é certo, mas só nela – e por ela – conseguirás ser feliz», é a mensagem sempre transmitida, seja de forma explícita, seja de forma subliminar.

Dizendo de outro modo: os grandes meios de comunicação social estão nas mãos dos grandes grupos económicos, os tais senhores feudais dos nossos tempos, a quem não interessa, naturalmente, que o feudalismo acabe. Percebido?

E se querem um exemplo vivo e actual do que pode ser a manipulação ideológica, agarrem já nas notícias que abriram, com fanfarra e foguetório, todos os noticiários televisivos, e fizeram manchete em todos os jornais, dizendo que o estudo encomendado pelo governo, que servirá de base a uma chamada reforma fiscal, aconselha que os casais possam fazer entrega de declarações de IRS separadas.

É evidente que essa medida poderá trazer pequenos benefícios pontuais num ou noutro caso, mas é perfeitamente inócua na maioria dos casos, para além de milhares de casais não serem capazes de fazer as respectivas contas para saberem quanto euros – ou cêntimos – poderiam poupar. O que esconde esta medida tão trombeteada, é algo muito grave. O governo, ao encomendar este estudo, sabe a quem o encomendou. E os autores do estudo sabem aquilo que o governo – que é quem lhes paga o trabalho – quer. E o que o governo quer não é, naturalmente, perder receita fiscal, mas aumentá-la. E como a vai aumentar? Simplesmente – e a medida lá está nalgumas das 700 páginas do estudo – reduzindo ou acabando com muitas das deduções específicas que os contribuintes desde sempre puderam fazer.

Esta é a grande medida que o estudo encerra, mas esta é a medida que os órgãos de comunicação social escondem, como se a não soubessem, fazendo o frete de predispor favoravelmente a opinião pública para mais um ataque ao bolso dos cidadãos. Dão-nos o chouriço das declarações separadas, e levam-nos o porco com a manobra das deduções específicas.

Mas há mais. Para dar um ar de esquerda e de justiça social à golpada, lá está sugerido que as mais-valias conseguidas com as negociatas na bolsa, passem a ser tributadas. Mas acontecem duas coisas muito simples. Em primeiro lugar, só passam a ser tributadas as mais-valias resultantes das vendas feitas no prazo de um ano após a compra dos títulos. Em segundo lugar, as transacções feitas em offshores vão continuar isentas.

Ora, quem vende pouco tempo depois de ter comprado? E quem não usa offshores para negociar acções?

Adivinharam: os pequenos investidores, a chamada classe média.

E quem fica livre de qualquer tributação?

Adivinharam outra vez: os senhores feudais da alta finança.

Perceberam agora, ou precisam que eu faça aqui um desenho?

Por isso, enquanto as eleições forem, apenas, uma questão de moscas, não passaremos da cepa torta.

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 14/10/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O PAÍS SENTADO

Há dias, enviaram-me um vídeo que, resumidamente, dizia que Portugal havia sido construído com o sangue e o suor dos fundadores da nossa nacionalidade, e dos que, ao longo dos séculos, haviam lutado para que o nosso país se mantivesse livre e independente. E – era esta a mensagem – que nos competia deixarmos de ser gente passiva e fazer respeitar essa herança. Utilizava-se mesmo a expressão: «levanta o cu do cadeirão». A ilustrar a ideia, umas imagens de combates medievais, sugerindo as lutas travadas na construção da nacionalidade e na preservação da nossa independência.

Enfim, um vídeo que poderia ter várias leituras, segundo a óptica de quem o visse. Poderia ser um vídeo de inspiração monárquica, poderia ser um vídeo de inspiração meramente nacionalista/corporativa (o Estado Novo, aliás, sempre teve uma costela azulada), poderia ser uma mensagem puramente idealista a tender para o ingénuo, poderia – sei lá – ser uma maneira peregrina de nos chamar à luta pelos nossos direitos.

Para mim, porém, teve uma leitura muito simples. Ao reenviá-lo, para os meus contactos, fi-lo acompanhar de um pequeno texto, que serve agora de base à crónica desta semana, e que passo já a ler-vos:

Nascemos aqui, para o bem e para o mal. Infelizmente, depois de 48 anos de ditadura, pouco tempo tivemos para escolher o nosso caminho, visando construir uma sociedade justa, responsável e digna, na qual os direitos e obrigações de todos, perante essa mesma sociedade, fossem comuns. Uma sociedade sem fome, sem exclusões, solidária e livre. Onde fosse obrigação prioritária do Estado garantir que todos tivessem acesso à saúde, à educação, ao trabalho, a uma remuneração digna – porque suficiente para as necessidades básicas, tanto no campo material, como espiritual – e, por fim, a segurança na velhice. Onde o Trabalho fosse um direito inalienável, mas, simultaneamente, uma obrigação de todos em idade e condição activa, ou seja, desde que aptos e saudáveis.

Infelizmente, os «democratas» que têm dirigido o país, de Mário Soares para cá, colocaram Portugal nas mãos da economia do regateio – mais conhecida por economia de mercado – da bolsa de valores, do salve-se quem puder – e salvam-se sempre os que detêm o poder económico, quero dizer, os meios de produção mais o capital financeiro. Portugal em breve viu morrer o sonho de ser o país de todos os portugueses, voltando rapidamente a ser, como o fora antes do 25 de Abril, o país de alguns portugueses. Poucos.

Com Mário Soares, e a partir dele, tudo – ou quase tudo – se privatizou, ficando o país entregue à gula dos que fazem da obtenção do lucro máximo o seu modo de vida. Os recursos nacionais passaram a ser recursos privados, e a riqueza, que poderia ser distribuída por todos, é acumulada, apenas, por uns quantos. Ainda hoje se quer privatizar o pouco que resta nas mãos do Estado, incluindo a privatização de um bem que mais público não podia ser, como o é a água. Um dia quererão privatizar o ar, não sendo de espantar que seja criada uma taxa qualquer sobre o ar que respiramos. Já faltou mais…

Um grupo restrito de portugueses, composto pelos velhos detentores do poder económico e seus herdeiros naturais, onde se agregou um clube de novos-ricos, constituído por uns bastardos insaciáveis, nascidos da promiscuidade das relações com o novel poder político parido em 25 de Novembro de 1975, detém as rédeas da economia. É suportada esta gente por uma classe política atenta e veneradora, cuja principal missão é manter esta «ordem natural das coisas», o que significa, segundo a perspectiva beata e salazarista da vida, o capitalista capitalizando, o trabalhador trabalhando e o governo zelando para que o capitalista capitalize e o trabalhador produza o mais que puder ao menor custo possível.

Para garantir que tudo continue assim, estão estabelecidas regras que garantem aos políticos uma justa recompensa pelo seu zelo e dedicação, quer através de poderem estabelecer para si próprios privilégios que negam, ou retiram, à maioria da população – especialmente ao nível das remunerações e reformas – quer através de nomeações para altos cargos nas empresas privadas, seja nas que sempre o foram, seja nas que tiveram a «visão estratégica» de privatizar. A Bem da Nação, como sempre.

Por outro lado, muitos democratas inicialmente mais ou menos sérios, deixaram-se seduzir pelos cadeirões do poder, pelo conforto dos estofos e dinheiro fácil, pelos almoços grátis, pelo saco sem fundo das despesas de representação, pelo futuro – o seu futuro – garantido à custo do exercício do poder, seja ele o Poder Central ou o Poder Local. A corrupção alastrou entre a classe dirigente, e é hoje a moeda de troca utilizada em todos os negócios. A democracia, na versão capitalista em curso, baseia-se, aliás, nas fraquezas humanas e na tendência que o ser humano tem para se deixar corromper. E bem sabemos como o poder corrompe e destrói com facilidade os valores morais de quem para tal já tem o temperamento adequado.

Resultado: o país, formalmente, é uma democracia, mas mantém os mesmos esquemas e vícios perversos da ditadura económica e social que caracterizou o fascismo, agravados ainda pela fúria revanchista do poder económico, de que é exemplo inequívoco o actual Código do Trabalho «socialista». E com a grande desvantagem, nos dias que correm, de se ter perdido o espírito de resistência e unidade que a repressão fascista acabava por criar.

Enredados nesta teia, confundidos e divididos pelos partidos, os portugueses perderam – se é que as actuais gerações alguma vez a tiveram – a noção de cidadania, e entregaram-se literalmente nas mãos dos políticos, quer por acção directa (através do exercício do voto – cerca de 60%) quer por omissão (nem sequer votando – cerca de 40%).

Neste contexto, o poder político e o poder económico – como duas faces da mesma moeda – estão nas suas sete quintas. Exploram um povo abúlico e encurralado na sua inexistente cultura crítica, incapaz de pensar como ser social e livre, de tal maneira que muitos portugueses acham, ainda na visão salazarenta das relações sociais, que «manda quem pode, obedece quem deve». Fora disto, é pecado. Tal como é pecado não aceitar como bom tudo o que fizer o partido em que se votou.

Tal como as crianças se satisfazem com um brinquedo, os portugueses satisfazem-se com um telemóvel, um cadeirão onde vêem futebol e telenovelas estúpidas, um carrito para as curvas, mesmo que não se possa utilizar durante o mês inteiro, e pouco mais. Os mais novos, sem perspectiva de futuro, vivem de trabalhos precários e a pouca segurança que têm resultam de ainda viverem em casa dos pais – ou de a ela regressarem se a coisa se complica.

A assim estamos.

Felizmente, não tenho o vício do cadeirão. Continuo a bater-me, dentro das minhas limitações, por um Portugal livre, solidário e justo, denunciando um sistema que produz políticos oportunistas, corruptos, parasitas, incompetentes e usurpadores dos nossos direitos, liberdades e património, que a tanto se resume a democracia desta gente que, a vários níveis, nos governa.

Esta não é, de forma alguma, a democracia que eu imaginei quando, em 25 de Abril de 1974, pensei que nunca mais, em Portugal, iria ver uma criança com fome, um homem desempregado ou um velho a morrer de carências e solidão. Confesso a minha ingenuidade na altura. Mas posso, nos dias de hoje, chamar canalhas e embusteiros aos que dizem que essa sociedade é utópica, e que haver ricos e pobres é uma fatalidade sem remédio.

Ser assim – ou não – só depende de nós. A nossa sociedade será o que nós quisermos. Porque somos mais de 9 milhões. E eles, o que têm essa perspectiva feudal da vida (a dos ricos e pobres), não passam de uma minúscula minoria. Com as costas quentes, mas minoria.

Então, como é? Ficamos no cadeirão, ou vamos correr com a choldra?

(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 07/10/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).