sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CEM ANOS DE SERVIDÃO


Há muitos anos que o mais célebre livro de Gabriel García Márquez – Cem Anos de Solidão – é um dos meus objectos de culto no plano literário. Não vou contar – ou comentar – toda a história que García Márquez magistralmente nos relata, mas dizer que a interpretei como um fantástico tratado sobre os labirintos em que os seres humanos gostam de se perder. Ou a tal parece estrarem condenados. O homem, que pode ter nas mãos a possibilidade de decidir do seu destino, não raramente utiliza essa liberdade – o seu poder – contra si próprio. Num dado momento, o livro toca nas guerras entre conservadores e liberais, conflito que assolava vários países hispano-americanos em meados do século XIX.

No fundo, trata-se do eterno conflito entre exploradores e explorados, sendo que os conservadores tinham como apoio a Igreja e o Exército, consideravam-se inspirados por um poder divino – o que os absolvia de todas as sevícias que praticavam – e lutavam pela manutenção da estrutura do antigo regime, inspirado ainda na velha ordem colonial. Já os liberais perseguiam o fim das bases ideológicas e materiais que sustentavam o poder conservador, lutando pela revisão dos títulos de propriedade de terra, pela laicização da sociedade e do Estado, pelo fim dos privilégios da classe dominante, por uma legislação que promovesse a justa distribuição da riqueza e, naturalmente, pela tomada do poder político.

O pior é que no caldeirão da luta partidária, rapidamente o povo é deixado para trás, a tal ponto que à derrota dos liberais sucede um acordo que permite aos seus partidários ocupar cargos no governo conservador. É então que o Coronel Aureliano Buendía resume esse facto – bem pior que a derrota militar – numa única observação: «A única diferença actual entre liberais e conservadores, é que os liberais vão a missa das cinco e os conservadores à missa das oito».

Aqui temos as consequências de os povos deixarem os seus destinos nas mãos de caudilhos, razão pela qual García Márquez acaba assim o seu livro: « e que tudo o que estava escrito neles (nos pergaminhos) era irrepetível desde sempre e para todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra».

Quase 48 anos de ditadura formal, mais 35 anos de ditadura mascarada de democracia, conduzida por caciques liberais como Soares, Cavaco, Guterres, Durão, Sócrates e Passos, eis-nos já com oitenta e três anos de solidão. Ou de servidão, tanto faz. Está quase esgotado o nosso prazo.

É hora, pois, de enfrentar o futuro e tomar as opções que têm de ser tomadas. Interessa-nos a manutenção de Portugal no euro e na UE, ou a recuperação da soberania monetária, com o lançamento de uma nova moeda de emissão estatal, sem a mão usurária dos banqueiros privados? Interessa-nos a renegociação da dívida – ou mesmo a cessação de pagamentos aos agiotas e de empréstimos cada vez mais ruinosos? Interessa-nos a renacionalização do sector financeiro e de grandes grupos económicos e a verdadeira democratização de Portugal?

Em suma: interessa-nos tomar o nosso futuro nas nossas mãos, ou enfrentar a sina da eterna servidão?


 (João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 08/08/2012.

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