quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A FOME, OS DEUSES E OS GATOS

O senhor governador do Banco de Portugal, cujo vencimento e respectivos aumentos são decretados por ele, e que, muito patrioticamente, ganha mais que o seu homólogo norte-americano, apesar de só Nova York ter mais habitantes do que Portugal inteiro, pediu realismo e aconselhou que os aumentos salariais não fossem além de 1,5%.

Este socialista – ou dizendo melhor: este militante do PS, que é uma coisa completamente diferente – deve pensar que todos ganham o que ele ganha. Se assim fosse, um aumento de 1,5% não seria nada mau. E quanto ganha o senhor governador do Banco de Portugal? Isso é coisa difícil de saber, porque os vencimentos dos senhores que governam aquela instituição pública… não são públicos. Ou seja: nós pagamos-lhe, mas tenta-se impedir que saibamos quanto é que lhe pagamos. Compreende-se. O descaramento, a desvergonha e a bagunça são de tal ordem, que as cautelas nunca são demais, não vá o povo, um dia destes, acordar e pedir contas. È difícil, mas pode acontecer.

Sendo assim, os últimos dados que tenho disponíveis remontam a 2005, e dizem-me que ele ganha – ou ganhava, se ainda não se aumentou desde aí, coisa em que não acredito – mais de 280.000 euros por ano, sem contar com as várias mordomias inerentes ao cargo. Feitas as contas, são. Em números redondos, 24.000 euros por mês, algo que ronda, na moeda antiga, os 5.000 contos. Um aumento de 1,5% sobre 5 mil contos, vale cerca de 75 contos, o que é superior à maioria das reformas e pensões pagas nesta coisa fétida a que chamamos país.

Já percebemos, então, o que quer dizer a palavra socialismo para o senhor Vítor Constâncio, como percebemos muito bem o grande socialista que ele é. A sorte dele – e de muitos como ele – é que o povo é sereno, resignado, cabisbaixo, medroso, algo cobarde e – diga-se a verdade – é aquela «enorme e possante besta» que, um dia, lhe chamou Erasmo de Roterdão, para explicar a incompreensível mansidão das massas face aos desmandos das elites possidentes.

Vem isto a propósito de duas coisas. A primeira, prende-se com as declarações do médico fundador da AMI, Fernando Nobre, durante o congresso dos economistas que decorreu no Funchal. Fernando Nobre, que é dos poucos portugueses vivos que merece o meu respeito, falava para uma plateia onde se destacavam antigos, actuais e, provavelmente, futuros ministros, tudo gente muito sábia e de mãos limpas, quando disse, entre outras coisas, que «é uma vergonha a pobreza que temos em Portugal», perguntando depois aos presentes quem é que, naquela sala, conseguia viver com 450 euros. Não vi, mas posso jurar, que os dedos médios daqueles senhores se esticaram de imediato, enquanto o indicador e o anelar se curvavam. E se não fizeram o gesto, certamente que o imaginaram.

Fernando Nobre lembrou que sem os apoios sociais e os diversos subsídios, a pobreza em Portugal não estaria nos 18% oficiais, mas nos 40%, o que significa que dois em cada cinco portugueses estão em risco de pobreza. Assim, todos os dias, em Portugal, o sistema económico e a governação que o serve produzem novos pobres, entre os quais estão os jovens com menos de 30 anos, milhares com curso superior, mas que, apesar disso, são as principais vítimas do desemprego ou do emprego precário mal remunerado. E muitos milhares de portugueses são obrigados a emigrar para fugirem à miséria, à insegurança e a uma vida sem esperança.

Fernando Nobre não disse, mas digo eu, que se isto está péssimo para dois em cada cinco portugueses, é porque eles não são, claro está, do grupo para o qual isto está muito bom, ou seja, o grupo do senhor governador do Banco de Portugal, ministros, deputados, autarcas, administradores disto e daquilo, presidentes, vice-presidentes e correspondentes assessores (e respectivos e respeitáveis séquitos) todos bem instalados nos vários organismos do Estado ou nas empresas públicas e privadas, apenas sujeitos às alternâncias provocadas pelas mexidas eleitorais, mas logo compensadas com opulentas reformas previamente legisladas.

Fernando Nobre afirmou, em conclusão: «Não aceito esta vergonha no nosso país». Não estive no Funchal, mas sei que todos o aplaudiram, como se aquilo não fosse nada com eles, principalmente com os antigos e actuais ministros lá presentes. Aliás, como sabemos, a pobreza é uma coisa que acontece, assim como uma tarde de chuva, ninguém tem culpa, ninguém pode impedir. É a vida. Só os alucinados ou os revolucionários idealistas mais ou menos líricos é que pensam o contrário: que a pobreza tem autores humanos, a começar por aqueles que detêm as rédeas da economia, os principais meios de produção, o capital financeiro e, para compor o ramalhete, o poder de fazer as leis pelas quais todos se regem.

Por isso, volto a fazer aquela pergunta simples e básica:

- Então, se a situação do país é péssima para a maioria – e óptima para uma minoria – e é essa minoria que tem governado, mandado, pondo, dispondo e impondo, nem assim é possível saber-se de quem é a culpa pela situação que se vive, continuando a fingir-se que estamos a sofrer, apenas, a fúria dos deuses?

Saramago não acredita em Deus. E eu, francamente, não acredito em deuses. Mas, pelos resultados eleitorais, parece que alguém acredita…



A segunda coisa diz respeito aos Gatos Fedorentos, de quem sou um admirador inabalável. As várias entrevistas que esmiuçaram os políticos e outras figuras, tiveram o mérito de colocar questões importantes e actuais, através de um registo de humor inteligente e relativamente cáustico. Mas o que escapou aos Gatos foi que, nas contas finais, se concluiu que tudo está bem quando acaba bem, ou seja, no meio de umas boas gargalhadas e palmadinhas nas costas. Todos saíram risonhos e com os egos em alta, fossem os esmiuçados, fossem os esmiuçadores.

Gente altamente responsável pela miséria que por aí alastra, impostores de alto gabarito, fazedores e aprovadores de leis que transformaram a vida de milhões de portugueses num inferno, indivíduos ao pé dos quais não devemos deixar estar os nossos filhos ou netos, figuras sinistras e imorais da governação passada e actual, todos eles por ali desfilaram com ar de gente normal, simples, impoluta e virgem de qualquer crime.

Compreendo os Gatos. Eles é que não compreenderam que o resultado final seria o branqueamento e a humanização da malandragem que quiseram esmiuçar. Ou compreenderam e não se importaram. Fizeram-nos rir, é certo, mas transformaram os crimes e os criminosos numa anedota bem contada.

Cá fora, no entanto, o desemprego, a fome e a insegurança continuavam a alastrar.


(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 28/10/2009.
(Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00).

16 comentários:

Anónimo disse...

De acordo com o Correio da Manhã,
Armando Vara, ex-ministro e actual vice-presidente do BCP, foi ontem constituído arguido no processo que a PJ apelidou de ‘Face Oculta’. O ex-governante é apontado nos mandados de busca como uma "pessoa influente nas empresas com participações do Estado", designadamente na recolha da informação privilegiada, e foi apanhado em escutas telefónicas com o empresário Manuel Godinho. Na conversa com Godinho – preso ontem pela PJ de Aveiro – Vara pede pelo menos dez mil euros "pelas diligências por si encetadas".

G'anda Vara.

Este sócio e grande amigo de Sócrates está em todas!

Anónimo disse...

E já devia estar preso há muito tempo. Ele, e muitos outros «socialistas», a começar pelo senhor que já foi um animal feroz...

Anónimo disse...

Esta crónica é das melhores que tenho lido. Simples, clara, e afiada como lâmina. Parabéns.

Anónimo disse...

Querem saber o que é o PS? É a gruta dos 40 ladrões. Omita-se o Ali Babá, porque era um tipo sério. Mas atenção! Não se trata apenas de ladrões, porque também estão lá os grandes centros de pedofilia de Portugal, os cabecilhas dos esquemas de corrupção a nível nacional, os bufos e toda a escória que tem nas veias o mesmo sangue dos pides. E os maiores broncos, calhaus e barrotes deste país.

David Rodrigues de Setúbal

Jaime - Amadora disse...

Este Armando Vara é um mal agradecido.
Em 1990 houve três amigos que lhe quiseram dar a mão (José Sócrates, Fátima Felgueiras e Sobral de Sousa) formando com ele a Sovenco - Sociedade de Venda de Combustíveis, Lda, com sede na Reboleira, Amadora, com o intuito de o ajudarem a ser alguém na vida.
Em especial Sócrates, que o considera um irmão, não o esqueceu na hora da distribuição de diplomas da Moderna, conseguindo com os seus conhecimentos que também ele possuísse uma licenciatura.
Como os amigos e irmãos são para as ocasiões, Sócrates também mexeu os cordelinhos para que Vara fosse parar à administração da CGD e mais tarde para o BCP.
E agora é o que se vê.
Logo que Vara se livrou dos 4 anos de prisão com pena suspensa, meteu-se logo noutras jogadas de corrupção e troca de influências pagas a peso de oiro, deixando o seu tutor e amigo Sócrates sem saber o que dizer.
Ingrato

Mário Raposo disse...

Caros amigos,

É necessário denunciar os propósitos da desmedida ambição, da falta de cultura democrática e falta de respeito pela vontade soberana da população de Fernão Ferro.

Transcrição do comunicado da CDU distribuído, hoje, 31.10.09:

"À POPULAÇÃO DA FREGUESIA DE FERNÃO FERRO

OPOSIÇÃO INVIABILIZA ELEIÇÃO DA JUNTA DE FREGUESIA

Das eleições Autárquicas do dia 11 de Outubro resultou uma clara vitória da CDU, traduzida na condição de força mais votada, com mais votos e maior percentagem, conseguindo o melhor resultado de sempre na Freguesia de Fernão Ferro.

Foi à CDU que os eleitores da nossa Freguesia reforçaram a confiança, acreditando nas suas propostas, nos seus projectos e nos seus candidatos, sabendo que os mesmos continuarão o trabalho e a dedicação que sempre demonstraram na construção de uma vida melhor, de progresso e desenvolvimento para a população e para a Freguesia.

A obtenção de 39,36% da votação para a Assembleia de Freguesia, ficando cerca 14 pontos percentuais à frente do PSD e cerca de 20 pontos percentuais à frente do PS deixa clara a intenção da população de continuar a confiar na CDU e nos seus eleitos para gerir os destinos da Freguesia. Com a votação obtida, a CDU teria condições para continuar e aprofundar o seu trabalho em prol da qualidade de vida das populações e do desenvolvimento da Freguesia.

Mas infelizmente a oposição – PSD, BE e PS – coligou-se para impedir a CDU de cumprir o seu programa eleitoral e estar à frente dos destinos da Freguesia como a população maioritariamente escolheu.

Com esta coligação a oposição demonstrou que não lhe interessa o bem-estar da população nem o desenvolvimento da Freguesia, apenas se motiva com a baixa política, o ódio pessoal e o impedir a concretização do programa eleitoral da CDU.

Inviabilizando a eleição do executivo a oposição obriga a que a Junta de Freguesia fique em gestão corrente impedindo a concretização das obras necessárias ao desenvolvimento da Freguesia.

Nós estamos de consciência tranquila, certos de que tudo fizemos para que as soluções fossem as que melhor servissem Fernão Ferro, mas não é isso que, infelizmente, a oposição demonstrou querer. Chegados a este impasse, e se a oposição – PSD, BE e PS – continuar a inviabilizar a eleição da Junta, demonstrando não respeitar a vontade da população, outra solução não haverá, na defesa dos interesses da Freguesia de Fernão Ferro, que não seja a população demonstrar, uma vez mais e de forma expressiva que quer que a CDU continue à frente dos destinos da Freguesia, cumprindo o seu programa eleitoral."

O que não ganharam nas urnas, querem estes srs. do PSD/BE/PS, coligados, ganhar na secretaria com o acordo que estabeleceram entre si.

A população de Fernão Ferro não vai perdoar esta tentativa de usurpação, pela força, do mandato que soberanamente atribuiu à CDU.

Estaremos atentos!

Monte Cristo disse...

Este blog admite todos os comentários, numa clara opção pela liberdade de expressão conquistada pelo 25 de Abril de 1974.

Infelizmente, o mesmo não se passa noutros sítios, mesmo naqueles criados pelos que se dizem os mais ferverosos defensores dessas liberdades.

Há muito que percebi que entre a teoria e a prática, para certos democratas, revolucionários e esganiçados defensores das conquistas de Abril, já existe um abismo maior que aquele que existe, em Portugal, entre ricos e pobres. Uns, por mera burrice e facciosismo sectário, outros por refinado calculismo e reles venalidade.

No fundo, tudo se resume à conquista do poder, a qualquer nível, e aí se esbatem todos os valores e todos os princípios. E se isso é mau, porque todos se igualam nos métodos e nos objectivos (o poder pelo poder), torna-se péssimo quando até os valores morais são desprezados.

Assim sendo - e se corruptos, ladrões, oportunistas, ou meros aproveitadores das migalhas que caem das mesas onde se partem e repartem os diversos orçamentos, podem fazer parte de TODA E QUALQUER lista - resta-me dizer que oiço e leio o que se diz e escreve, mas, muito francamente, essa não é a minha luta.

Assim, a política continua a ser, 35 anos depois do 25 de Abril, uma porca com muitas tetas, tal como a representou Raphael Bordallo-Pinheiro. E onde mamam, gostosamente, até aqueles que dizem repudiar essa realidade.

O vírus da devassidão política, contido nesse nutritivo leite, alastrou, então, como pandemia e infectou até aqueles que a ele se diziam imunes.

É uma pena, mas é assim. E para retomarmos os caminhos de Abril, há, em primeiro lugar, que limpar e desinfectar a casa. Isto, caso queiramos andar na rua de mãos limpas, cara levantada e dizer a todos, sem medo de que nos chamem pulhas, que nada temos nos bolsos que não fosse ganho com o nosso trabalho honrado.

Claro que esta carapuça serve a quem a enfiar.

J.S. Teixeira disse...

Os três estarolas de Fernão Ferro, querem sobrepor-se á vontade soberana do povo e decidiram inviabilizar a tomada de posse da CDU nessa freguesia. Quando não se tem capacidade para ganhar pelas vias democráticas utilizam-se ardis para tomar o poder de assalto.

Conheça todos os detalhes no blogue O Flamingo.

Tenho dito.

Anónimo disse...

Boa noite Monte Cristo. Que grande lição você deu. Acho que a carapuça serve a muita gente pois está tudo contaminado pela ganância. Anda tudo ao tacho e a encher os bolsos á conta do mesmo.
O pior é que parece que cada vez há menos gente séria na política e já não de distinguem uns dos outros.

Ana Martins Barreiro

Anónimo disse...

É curioso o cuidado e o silêncio das forças partidárias, no seu conjunto, sobre o caso Vara. A explicação está no estafado «deixem a justiça fazer o seu trabalho». Eu tenho outra. O Vara é uma espécie de tesoureiro do saco azul socialista, ou o cobrador, se quiserem. Come a parte dele, claro, mas o grosso do bolo vai para Largo do Rato. Jorge Coelho é outro. Todos os partidos sabem disto, tal como o PS sabe quem são os tesoureiros/cobradores dos outros partidos, seja a nivel nacional, seja a nível local. O pacto do silêncio entre a irmandade é uma realidade, especialmente quando se vê as barbas do vizinho a arder.
E nós a pagar.

Anónimo disse...

“Pressão têm as famílias que estão no desemprego”.
Paulo Bento

O futebol, como manifestação social que atinge milhões de pessoas, também pode servir para passar mensagens. Boas mensagens, como se vê.

Mais uns pontos a favor deste jovem treinador.

Anónimo disse...

Tem razão, Paulo Bento. Pressão têm os desempregados e os que não sabem se amanhã vão perder o trabalho ou receber o ordenado. Bem, mas bem, estão os políticos, desde o senhor PR da República aos senhores autarcas, que têm o seu está sempre garantido, mais a bela reforma, mais os almoços grátis, mais o cartão de crédito e carrinho às ordens. O 25 de Abril morreu e nasceu em seu lugar uma república de chulos.

J.S. Teixeira disse...

O PSD e o seu candidato por Fernão Ferro, Franklin Vinhas, apoiado pela corja de frequentadores do "BORDEL DA MENA", têm os candidatos do PS e do BE presos pela trela. Desta forma vão criando instabilidade na freguesia prejudicando os seus habitantes.

Leiam o testemunho de um eleitor dessa freguesia no blogue O Flamingo.

O blogue que, segundo um tal de MLFF, anda a ser observado pela Polícia Judiciária por difamação (risos).

Tenho dito.

Anónimo disse...

Todos diferentes, todos iguais, cada um puxando a brasa à sua sardinha e, chegando a hora, cada um capaz de fazer o que aponta nos outros. A política é mesmo uma grande porca, sempre com muitos porcos à volta. Gente séria, precisa-se!

Anónimo disse...

Os porcos não merecem ser comparados com essa gente.
Gosto demasiado de leitão assado para aceitar que os seus pais sejam ofendidos.

Anónimo disse...

estou cheio de tesão e não tenho uma puta comuna à mão...