domingo, 7 de março de 2010

O último encontro com Lula

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Conheci Lula em Manágua, em Julho de 1980, há trinta anos, durante a comemoração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, graças aos meus contactos com os parceiros da Teologia da Libertação, iniciados no Chile, no ano 1971, quando visitei o presidente Allende.

Graças a Frei Betto sabia quem era Lula, um líder operário no qual os cristãos de esquerda tinham depositado bem cedo as suas esperanças.

Tratava-se de um humilde operário da indústria metalúrgica, que se destacava pela sua inteligência e prestígio entre os sindicatos, na grande nação que emergia das trevas da ditadura militar, imposta pelo império ianque, na década de 60.

As relações do Brasil com Cuba tinham sido excelentes até que o poder dominante no hemisfério fê-las sucumbir. Desde então transcorreram décadas até que lentamente voltaram a ser o que são hoje.

Cada país viveu a sua história. A nossa Pátria suportou inusitadas pressões nas etapas incríveis vividas a partir de 1959, na sua luta perante as agressões do mais poderoso império que jamais tenha existido na história.

Por isso, para nós tem uma enorme transcendência a reunião que se acaba de efectuar em Cancún e a decisão de criar uma Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe. Nenhum outro facto institucional do nosso hemisfério, durante o último século, encerra semelhante transcendência.

O acordo atinge-se no meio da mais grave crise económica que tenha havido no mundo globalizado, coincidindo com o maior perigo de catástrofe ecológica da nossa espécie e, ao mesmo tempo, com o terramoto que destruiu Porto Príncipe, capital do Haiti, o desastre humano mais doloroso na história do nosso hemisfério, no país mais pobre do continente e o primeiro onde foi erradicada a escravidão.

Quando estava escrevendo esta Reflexão, apenas seis semanas depois da morte de mais de duzentas mil pessoas, de acordo com as estatísticas oficiais daquele país, chegaram notícias dramáticas dos danos causados por outro terramoto no Chile, que matou um número de pessoas que já se aproxima das mil, segundo estimativas das autoridades, além de enormes danos materiais. Comoviam especialmente, as imagens dos sofrimentos de milhões de chilenos, afectados material ou emocionalmente por esse golpe cruel da natureza. Felizmente, o Chile é um país com mais experiência perante este tipo de fenómeno, muito mais desenvolvido economicamente e com mais recursos. Caso não contasse com infra-estruturas e edificações mais sólidas, talvez dezenas ou, inclusive, centenas de milhar de chilenos teriam perecido. Fala-se em dois milhões de danificados e perdas que flutuam entre 15 e 30 bilhões de dólares. Nesta tragédia, o Chile conta com a solidariedade e com as simpatias dos povos, entre eles o nosso, embora, devido ao tipo de cooperação de que precisa, Cuba pode fazer bem pouco, mas o nosso governo foi dos primeiros a expressar ao do Chile os seus sentimentos de solidariedade, quando as comunicações ainda estavam colapsadas.

O Haiti é o país que, sem dúvida, hoje põe à prova a capacidade do mundo para enfrentar a mudança climática e garantir a sobrevivência da espécie humana, pois constitui um símbolo da pobreza de que padecem hoje bilhões de pessoas no mundo, incluída uma parte importante dos povos do nosso continente.

O acontecido no Chile com o terramoto, que teve uma incrível intensidade de 8,8 na escala de Richter, embora, por fortuna, a maior profundidade daquele que destruiu Porto Príncipe, obriga-me a pôr ênfase na importância e no dever de estimular os passos de unidade conseguidos em Cancún, embora não tenha ilusões quanto à difícil e complexa que será a nossa luta de ideias perante o esforço do império e dos seus aliados, dentro e fora dos nossos países, com o objectivo de frustrarem a tarefa unitária e independentista dos nossos povos.

Desejo deixar constância escrita acerca da importância e do simbolismo que teve para mim a visita e o último encontro com Lula, do ponto de vista pessoal e revolucionário. Ele expressou que, prestes a finalizar o seu mandato, desejava visitar o seu amigo Fidel; qualificativo honroso que recebi da sua parte. Acho que o conheço bem. Não poucas vezes conversámos fraternalmente dentro e fora de Cuba.

Numa ocasião, tive a honra de o visitar no seu lar, situado num modesto bairro de São Paulo, onde morava com a família. Para mim foi um encontro emotivo com ele, com a sua esposa e com os seus filhos. Nunca esquecerei a atmosfera familiar e sadia daquele lar e o sincero afecto com que o tratavam os moradores vizinhos, numa época em que Lula já era um prestigiado líder operário e político. Então ninguém sabia se chegaria ou não à presidência do Brasil, pois os interesses e forças que se opunham a ele eram enormes, mas para mim era grato falar com ele. Lula tampouco se importava muito com o cargo; satisfazia-lhe, sobretudo, o prazer de lutar e fazia-o com incontestável modéstia; o qual demonstrou folgadamente quando, tendo sido vencido em três ocasiões pelos seus poderosos adversários, somente acedeu a candidatar-se numa quarta ocasião, como representante do Partido dos Trabalhadores, devido à forte pressão dos seus amigos mais sinceros.

Não tentarei fazer uma narrativa das vezes que falamos, antes que fosse eleito presidente; uma delas, entre as primeiras, foi em meados da década de 80, quando lutávamos em Havana contra a dívida externa da América Latina, que na época chegava a 300 bilhões de dólares e tinha sido paga mais de uma vez. Era um lutador inato.

Em três ocasiões, como já disse, os seus adversários, apoiados em enormes recursos económicos e mediáticos, derrotaram-no nas urnas. Contudo, os seus mais próximos colaboradores e amigos sabíamos que tinha chegado a hora de que aquele humilde operário fosse o candidato do Partido dos Trabalhadores e das forças da esquerda.

Com certeza, os seus contrários subestimaram-no, pensaram que não poderia contar com maioria alguma no órgão legislativo. A URSS já não existia. O que poderia significar Lula na liderança do Brasil, uma nação de grandes riquezas, mas de escasso desenvolvimento nas mãos de uma burguesia rica e influente?

Mas o neoliberalismo entrava em crise, a Revolução Bolivariana tinha triunfado na Venezuela, Menem tinha caído a pique, Pinochet tinha saído do palco e Cuba resistia. Mas Lula foi eleito enquanto Bush triunfava de forma fraudulenta nos Estados Unidos, despojando da vitória o seu rival Al Gore.

Principiava uma etapa difícil. Os primeiros passos do novo presidente dos Estados Unidos foram impulsionar a corrida aos armamentos e com ela o papel do Complexo Militar Industrial, reduzindo os impostos aos sectores ricos.

Sob o pretexto da luta contra o terrorismo, Bush reiniciou as guerras de conquista e institucionalizou o assassinato e as torturas como instrumento de domínio imperialista. São impossíveis de publicar os factos relativos aos cárceres secretos, que delatavam a cumplicidade dos aliados dos Estados Unidos com essa política. Dessa forma, acelerou-se a pior crise económica, as mesmas crises que em forma cíclica e crescente acompanham o capitalismo desenvolvido, mas desta vez com os privilégios de Bretton Woods e sem nenhum dos seus compromissos.

O Brasil, por outro lado, nos últimos oito anos, sob a direcção de Lula, superava obstáculos, incrementava o seu desenvolvimento tecnológico e potencializava o peso da economia brasileira. A parte mais difícil foi no seu primeiro período, mas teve sucesso e ganhou experiência. Com o seu incansável trabalho, serenidade, sangue frio e crescente consagração à tarefa, em condições internacionais tão difíceis, o Brasil atingiu um PIB que se aproxima dos dois trilhões de dólares. Os factos flutuam segundo as fontes, mas todas elas colocam o Brasil entre as dez maiores economias do mundo. Apesar disso, com uma superfície de 8.524,000 km2, perante os Estados Unidos, que apenas possui um pouco mais de território, o Brasil só atinge aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto desse país imperialista que saqueia o mundo e marca presença com as suas forças armadas em mais de mil bases militares de todo o planeta.

Tive o privilégio de assistir à sua tomada de posse, nos fins de 2002. Também esteve Hugo Chávez, que acabava de enfrentar o golpe traidor de 11 de Abril desse ano e mais tarde o golpe petroleiro, organizado por Washington. Já Bush era presidente. As relações entre o Brasil, a República Bolivariana e Cuba sempre foram boas e de mútuo respeito.

Eu sofri um acidente sério, em Outubro de 2004, que limitou seriamente as minhas actividades durante vários meses; e adoeci gravemente em Julho de 2006, perante o qual não duvidei e deleguei as minhas funções na frente do Partido e do Estado, na Proclama de 31 de Julho desse ano, com carácter provisório, e pouco depois dei-lhe carácter definitivo, quando compreendi que não estaria em condições de assumi-las novamente.

Quando a gravidade da minha saúde me permitiu estudar e meditar, consagrei-me a isso e a rever materiais da nossa Revolução e a publicar, de vez em quando, algumas Reflexões.

Depois que adoeci tive o privilégio de ser visitado por Lula, todas as vezes em que viajou à nossa Pátria e de conversar amplamente com ele. Não direi que sempre coincidi com a sua política. Sou, por princípio, oposto à fabricação de biocombustível a partir de produtos que possam ser utilizados como alimentos, ciente de que a fome é e poderá ser, cada vez mais, uma grande tragédia para a humanidade.

Contudo — e expresso-o com toda a franqueza — este não é um problema criado pelo Brasil e muito menos por Lula. Faz parte inseparável da economia mundial imposta pelo imperialismo e pelos seus aliados ricos os que, subsidiando as suas produções agrícolas, protegem os seus mercados internos e concorrem no mercado mundial com as exportações de alimentos dos países do Terceiro Mundo, obrigados a importarem, em troca, os artigos industriais produzidos com as matérias-primas e com os recursos energéticos deles mesmos, que herdaram a pobreza de séculos de colonialismo. Compreendo perfeitamente que o Brasil não teve outra alternativa a não ser incrementar a produção de etanol, perante a concorrência desleal e os subsídios dos Estados Unidos e da Europa.

A taxa de mortalidade infantil no Brasil ainda é de 23,3 em cada mil nascidos vivos e a materna é de 100 em cada 100 mil partos, enquanto nos países industrializados e ricos é de menos de 5 e de 15, respectivamente. Poderíamos citar muitos outros dados semelhantes.

O açúcar de beterraba, subsidiada pela Europa, despojou o nosso país do mercado açucareiro, derivado da cana-de-açúcar, trabalho agrícola e industrial precário e eventual que mantinha no desemprego os trabalhadores açucareiros, boa parte do tempo.

De outra parte, os Estados Unidos apoderaram-se também das nossas melhores terras e as suas empresas eram proprietárias da indústria. Um dia, de forma abrupta, despojaram-nos da cota açucareira e bloquearam o nosso país para esmagar a Revolução e a independência de Cuba.

Hoje, o Brasil desenvolveu a cultura da cana-de-açúcar, da soja e do milho com maquinarias de alto rendimento, as que podem ser empregadas nessas culturas com altíssima produtividade. Quando um dia observei as filmagens de um plantio de 40 mil hectares de terra na província de Ciego de Ávila, dedicado à cultura da soja, alternando com milho, onde se tentará trabalhar o ano todo, expressei: é o ideal de uma empresa agrícola socialista, altamente mecanizada, com elevada produtividade por homem e por hectare.

O problema da agricultura e das suas instalações no Caribe são os furacões, os que em número crescente, arrasam o território.

Também o nosso país elaborou e assinou com o Brasil o financiamento e construção de um ultramoderno porto em Mariel, que será de enorme importância para a nossa economia.

Na Venezuela está a ser utilizada a tecnologia agrícola e industrial brasileira para produzir açúcar e empregar o bagaço como fonte de energia termoeléctrica. São equipamentos avançados instalados numa empresa também socialista. Na República Bolivariana empregam o etanol para melhorar o efeito nocivo da gasolina no meio ambiente.

O capitalismo desenvolveu as sociedades de consumo e também fomentou o esbanjamento de combustível, o qual gerou o risco de uma dramática mudança climática. A natureza demorou 400 milhões de anos a criar o que a nossa espécie está consumindo em apenas dois séculos. A ciência ainda não resolveu o problema da energia que substituirá a que hoje gera o petróleo; ninguém sabe quanto tempo precisará e quanto custará resolvê-lo em questão de tempo. Por acaso disporá dele? Isso foi o que se discutiu em Copenhaga e a Cúpula resultou num fracasso total.

Lula contou-me que quando o etanol custa 70% do valor da gasolina, já não é negócio produzi-lo. Expressou que apesar de o Brasil dispor da maior floresta do planeta, reduzirá progressivamente o corte de madeira em 80%.

Hoje, possui a maior tecnologia do mundo para perfurar no mar e pode extrair combustível a uma profundidade de sete mil metros no fundo marinho. Há 30 anos, isso teria parecido uma história de ficção científica.

Explicou os programas educacionais de alto nível que o Brasil se propõe implementar. Valoriza altamente o papel da China no âmbito mundial. Declarou com orgulho que o intercâmbio comercial com esse país já é da ordem dos 40 bilhões de dólares.

Uma coisa é indiscutível: o operário metalúrgico converteu-se actualmente num homem de Estado destacado e de grande prestígio, cuja voz é escutada com respeito em todas as reuniões internacionais.

Orgulha-se por ter ganho a honra de celebrar os Jogos Olímpicos no Brasil em 2016, em consequência do excelente programa apresentado na Dinamarca. O Brasil será também a sede do Mundial de Futebol em 2014. Isso tudo foi o fruto dos projectos apresentados pelo Brasil, que superaram os dos seus concorrentes.

Uma prova precisa do seu altruísmo foi a decisão de não se candidatar para a reeleição e confia em que o Partido dos Trabalhadores continuará governando o Brasil.

Alguns que invejam o seu prestígio e a sua glória e pior ainda, os que estão ao serviço do império, criticaram-no por visitar Cuba. Para isso, utilizaram as vis calúnias que há mais de meio século empregam contra Cuba.

Lula conhece há muitos anos que no nosso país ninguém jamais foi torturado, que jamais se produziu o assassinato de um adversário, jamais se mentiu ao povo. Tem a certeza de que a verdade é parceira inseparável dos seus amigos cubanos.

De Cuba partiu rumo ao nosso vizinho Haiti. Informámo-lo das nossa ideias acerca daquilo que propomos quanto à implementação de um programa sustentável, eficiente, nomeadamente importante e muito económico para o Haiti. Conhece que mais de cem mil haitianos foram atendidos pelos nossos médicos e pelos formados na Escola Latino-Americana de Medicina, depois do terramoto. Falámos de coisas sérias, conheço os seus ferventes desejos de ajudar esse nobre e sofrido povo.

Guardarei uma inesquecível recordação do meu último encontro com o Presidente do Brasil e não hesito em dizê-lo.

(Fidel Castro Ruz)

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