quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ENTÃO, E OS OUTROS?


Acabou o longo prólogo do processo Casa Pia. Vamos entrar, agora, certamente que por muitos e largos anos, no romance propriamente dito. E, a julgar pelo que já vimos e ouvimos, a coisa promete. Para já, e de tudo o que se passou durante estes últimos oito anos, ficaram algumas certezas.


- A primeira, é que existiam na nossa sociedade – e, seguramente, continuam a existir – muitos cavalheiros cuja área libidinosa lhes dá para se satisfazerem através de relações sexuais com crianças e jovens, preferencialmente do mesmo sexo. Para além de homossexuais – coisa que não pensam ser – são pedófilos.


- A segunda, é que a Casa Pia era, através de um seu empregado – e antigo aluno – a fornecedora de corpos jovens e baratos.


- A terceira, é que um diversificado grupo de indivíduos, bem instalados na sociedade, se dedicou, ao longo de muitos anos, a práticas sexuais com dezenas – eventualmente, centenas – desses jovens, a quem pagavam para o efeito.


- A quarta, é que tal perversidade era assumida como uma coisa banal, um prazer que o dinheiro comprava, como comprava qualquer outro luxo. Extravagâncias de Césares dos nossos tempos.


- A quinta, é que alguns desses sujeitos foram chamados a prestar contas à justiça.


- A sexta, é que outros desses indivíduos – uns por razões sabidas, outros, por razões ainda por saber – se livraram do banco dos réus. (É um dos agora condenados – Carlos Cruz – que confirma isso mesmo, algo, aliás, que o país há muito já percebera).


- E, finalmente, a sétima: vão seguir-se, a par dos expedientes legais tendentes a revogar as condenações agora aplicadas, os expedientes da mais variada ordem, levando a que a necessidade de proteger os pedófilos que agora conseguiram escapar às malhas da lei, venha a provocar que tudo dê em águas de bacalhau. Carlos Cruz já teve o cuidado de enviar, publicamente, os recados necessários às orelhas convenientes, ao perguntar com todas as letras: Então, e os outros? O que soou assim: ou me livram desta, ou abro o bico.


Para além destas certezas, uma esperança: que a Justiça consiga, através deste tremendo processo, provar aos portugueses que existe para garantir o primado da lei sobre a arbitrariedade, a violência e a devassidão, que não há uma Justiça para os pobres e outra para os ricos – ou para os que têm as costas quentes por qualquer partido – enfim, que não está refém do poder político e que não se deixa intimidar nem corromper.


Que nos dê, em suma, um motivo para acreditar que nem tudo está perdido. Que puna exemplarmente os pedófilos apanhados, e que apanhe os que andam por aí ainda à solta.


Os tais outros, para citar Carlos Cruz.



(João Carlos Pereira)


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Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 08/09/2010.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O SENHOR PEREIRA, O SENHOR SILVA E O SENHOR SOUSA



Mal um dos nossos ouvintes soube que eu tinha regressado de férias, enviou-me o seguinte e-mail:

«Ainda bem que voltaste. O país precisa de ti agora, mais do que nunca, porque nos vimos livres do Sócrates e do seu miserável governo. Lá, onde estiveste, não deves ter ouvido notícias e, por isso, desconheces que aqueles processos judiciais, que já duravam há largos anos chegaram ao fim e que os réus foram todos condenados a pesadas penas de prisão. Acabaram as taxas moderadoras na saúde e os hospitais estão a funcionar em pleno, já não existindo listas de espera. Os bancos passaram a pagar os mesmos impostos que são exigidos às outras empresas e estão proibidos de cobrar aquelas taxas de serviços que não pedimos, nem necessitamos. Foram abolidos definitivamente os recibos verdes na função pública e os trabalhadores passaram todos para os quadros, com aumentos médios muito acima da inflação que se dizia existir. O desemprego caiu drasticamente e todos os dias são criadas novas empresas de tipo familiar, que estão a colocar a nossa economia muito à frente dos restantes países europeus. Este verão, praticamente não houve incêndios, porque as matas são limpas e os poucos pirómanos que ainda existem são imediatamente presos e tão cedo não se metem noutra. Os combustíveis e o IVA desceram e já pagamos o mesmo que os espanhóis. Há muitas outras novidades que tu desconheces e por isso almoçamos um dia destes, para ficares ao corrente do que se passou por cá. Até lá um abraço e anima-te, que isto agora é que vai "avante"».


Sorri-me do humor negro do meu amigo. Continuando a ler os e-mails, destacou-se logo outro, este de uma ouvinte nossa, também regressada agora de férias. Entre outras coisas, dizia-me:

«Esta viagem que fiz, deu, mais uma vez, para perceber que somos, efectivamente, uma vergonha para a Europa. Como te escrevi há uns tempos, não me importa nada em saber se todos os países que visitei são governados por políticas de esquerda ou de direita, estou-me nas tintas para a nomenclatura, a única coisa que sei, porque vi e testemunhei, é que aquela gente vive com extrema qualidade de vida e em liberdade. Percorri, com algum detalhe, a França, a Suiça, principalmente a Áustria, a Alemanha e a Itália e parecia que estava noutro planeta, a anos luz deste terreno plantado à beira-mar, bonitinho, que amamos porque aqui temos enterrada a nossa vida, mas totalmente inabitável, a todos os níveis».


Ai de mim, que passei as férias cá dentro, deitando contas à vida, e incapaz de me alhear da nossa triste realidade. Estive grande parte do tempo a respirar o fumo dos incêndios, ou a vê-los lavrar, sem precisar de assistir aos noticiários da televisão. Ouvi as queixas dos bombeiros e de elementos da GNR, todas coincidentes em dois pontos: falta de meios e incúria do governo, que não sabe defender a nossa riqueza natural, deixando a fauna e a flora, especialmente a que está à sua guarda, em áreas protegidas, completamente ao abandono.


Ouvi as patacoadas indecentes do senhor Pereira, ministro da Administração Interna, que não se cansava de repetir que estava a arder menos que no ano de 2003. Porquê 2003, senhor ministro? Não há, no seu registo mental, o ano de 2002? Nem de 2001? Ou os anos de 2004 a 2009? Apagou esses anos das estatísticas? Porque não lhe interessou citá-los? E porque não nos explicou, senhor Pereira, porque não se desbloqueia a verba para entregar aos bombeiros as 35 viaturas que reconhecidamente estão em falta? Será porque se gastou a massinha toda com os 962 carros de luxo para a rapaziada dos ministérios? E que explicação tem V. Exa., bem como os dois optimistas (o senhor Silva e o senhor Sousa) que interromperam férias para se inteirarem da situação e, perante ela, se sentiram satisfeitos e tranquilos, quando ficámos a saber que de toda a área ardida no espaço comunitário – na Europa – desde o dia 1 de Janeiro, 70% ardeu neste cantinho chamado Portugal? Como explicam vossas sumidades que nesta meia dúzia de quilómetros quadrados tenha ardido mais do dobro que na Europa toda? Pronto, mas ardeu menos que em 2003, não é senhor Pereira?

O país continua a arder. Em todos os sentidos. Arde a floresta, arderam 1.836 empresas em seis meses e ardem 224 empregos por dia. Ardem os nossos bolsos com os impostos e os aumentos de tudo o que somos obrigados a comprar. Arde o nosso futuro às mãos de políticos trafulhas, incompetentes e desavergonhados, mentirosos e trapaceiros.

Entretanto, o senhor Silva vai recandidatar-se; o senhor Sousa aguarda que o ponham com dono, para ir brincar aos engenheiros ali para as bandas da Covilhã, onde já tem obra feita; e o senhor Pereira, coitado, regressou ao ano de 2003, que era o único ano de que se lembrava…

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 01/09/2010.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

AZULEJO EM TOLEDO

terça-feira, 17 de agosto de 2010

CONTAS DO ESTADO

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Recebemos este e-mail - que queremos compartilhar - enviado a Cavaco Silva e a José Sócrates sobre as Contas do Estado de 2009, pedindo explicações pelo desvio.
...
c/ B.C.C. a cidadãos conscientes e desde já autorizados à respectiva divulgação generalizada, destapando o alegado "manto de censura" da Comunicação Social deste regime.

Exmos. Senhores
Presidente da República,
Primeiro-Ministro,
Representantes do PSD e CDS,

Boa tarde

Peço desculpa, antes de mais, pois os Senhores são os únicos contactos políticos de quem tenho endereços de e-mail.

Para vosso conhecimento (e despertar das vossas consciências cívicas) os quadros a seguir apresentados, dos quais é possível constatar que andarão a "brincar" com o dinheiro dos contribuintes. Atente-se:

Em 2010, Teixeira dos Santos inscreveu no OE 14.048 milhões de euros de "Despesas Excepcionais", presumindo-se (pelo exemplo do ano anterior) que não aplicará a totalidade essa verba (pois "só" usou 3.266 dos 23.258 milhões orçamentados).

Sendo assim, porque razão exige-se aos portugueses 1.700 milhões de euros de esforço acrescido em impostos directos e indirectos, quando pode aplicar esta rubrica orçamental? Só há uma qualificação (mínima) para mim: Abuso de Poder e desonestidade intelectual e política!

Agrava-se o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, há empresas que fecham diariamente e a classe média e média baixa (as únicas que não têm benefícios fiscais nem podem fugir ao Fisco - nem abrir contas na Suíça em nome de primos motoristas - vê-se cada vez mais em dificuldades para gerir os seus orçamentos domésticos, sem falar no aumento da criminalidade, fruto do desemprego.

Qualquer dia, aplica-se o artigo 21.º da Constituiçãio: Direito de Resistência ao pagamento de impostos.

Por outro lado, é preciso perguntar e saber do Governo:

1. Por que razão os Serviços de Apoio e Coordenação, Órgãos Consultivos e outras entidades da PCM (Presidência do Conselho de Ministros) custaram ao erário público mais € 1.612,846,40 do que estava orçamentado?

2. Por que razão o Gabinete do Ministério dos Negócios Estrangeiros custou ao erário público € 651.784,29 a mais do que estava orçamentado?

3. Por que razão a Cooperação e Relações Externas do Ministério referido no número anterior custou € 20.902.823,71 a mais do que estava orçamentado?

4. Por que razão os Serviços Gerais de apoio, estudo, coordenação e cooperação do Ministério das Finanças custou € 3.746.830,11 a mais do que estava orçamentado?

5. Por que razão o Ministério da Defesa Nacional custou € 107.182.211,83 a mais do que estava orçamentado?

6. Por que razão os Serviços Gerais de apoio, Estudo e Coordenação do Ministério da Administração Interna custaram mais € 31.153.248,77 do que estava orçamentado?

7. Por que razão os Serviços Gerais de Apoio, estudo, coordenação, controlo e cooperação custaram ao erário público mais € 61.665.573,38 do que estava orçamentado?

8. Por que razão os Serviços de Investigação, Inovação e Qualidade (dos produtos chineses, a troco da venda dos Airbus para a Air China?) custaram mais € 4.734.750,00 do que estava orçamentado?

9. Por que razão os Serviços Gerais de Apoio, Estudos, coordenação e Cooperação do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território custaram mais € 2.385.979,44 do que estava orçamentado?

10. Por que razão os Serviços na Área do Ambiente do ministério atrás referido custaram € 2.910.347,58 a mais do que estava orçamentado?

11. Por que razão o Gabinete do Membro do Governo para a Educação custou mais € 222.539,87 do que estava orçamentado?

12. Por que razão os Serviços Gerais de Apoio, estudo, coordenação e cooperação custaram mais € 71.225.597,71 a mais do que estava orçamentado?

12.1. Será por isso que não se valoriza a carreira docente neste País?

13. Por que razão o Gabinete do Membro do Governo com os pelouros da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior gastou mais € 22.448,44 (é nos tostões que se poupam milhões, para quem seja - e não seja - economista...)

14. Por que razão os Serviços Gerais de apoio, estudo, coordenação e cooperação desse mesmo Ministério do Ensino Superior (numa clara duplicação de despesa pois não faz sentido que esteja separado da Educação, tendo nós dois Ministros para o mesmo Ramo, como se fôssemos um País economicamente saudável...) gastaram mais € 440.519,78 do que estava orçamentado?

14.1. Recordando, a propósito, que o que estava orçamentado era, "simplesmente" € 10.181.000,00...

15. Por que razão os Serviços de apoio central e regional, estudos, coordenação e cooperação do Ministério da Cultura gastaram mais € 2.486.066,24 do que estava orçamentado? E que já eram € 26.833.099,00.

16. Por que razão a Presidência da República gastou exactamente o mesmo que estava orçamentado?

16.1. Dado que estamos numa situação insustentável, não caberia ao mais alto magistrado da nação fazer um esforço de poupança, quando é isso que se pede aos portugueses e os obrigamos a pagar ainda mais impostos?

Para finalizar, por agora, mais 5 perguntas:

A) Por que razão o Orçamento do Estado (v.g., Encargos Gerais e Ministérios) sofre um agravamento das despesas na ordem dos 25% (!!!)?

B) Por que razão entre 2008 e 2009, na Conta Geral do Estado ocorreu um aumento da despesa da Assembleia da República de 74%(!!!)?

C) Quanto é que nos custou a última visita do Papa? É verdade que foram 75 milhões de euros?

D) Quanto é que custaram as comemorações dos 25 anos de adesão à CEE?

E) Por que razão não inibem as pessoas que tenham recebido subsídios públicos e, entretanto, apresentado pedidos judiciais de insolvência, de voltar a receber novos subsídios?

Enquanto aguardo resposta a todas as questões suscitadas, fica à consideração da vossa consciência: **

É preciso ter vergonha na cara e explicar (cêntimo a cêntimo) a verba 60 "Despesas Excepcionais" inscritas no Orçamento do Mi(ni)stério das Finanças!

É preciso ter vergonha na cara e suspender este abusivo aumento extraordinário de impostos!

É preciso ter vergonha na cara e começarem a apresentar (e publicitar) a vossa declaração anual de património e não apenas de rendimentos!

É preciso ter vergonha na cara e responsabilizar pessoalmente quem gasta mais do que está orçamentado!

É preciso ter vergonha na cara e não andar a salvar bancos só porque alguns familiares de políticos importantes são accionistas e poderiam perder os seus "legítimos" rendimentos!

É preciso ter vergonha na cara e não ser conivente com os aumentos das despesas dos gabinetes ministeriais. E responsabilizar, pessoalmente, os Ministros (incluindo o PM), obrigando-os à devolução do diferencial, por conta do abatimento de capital da dívida pública.

É preciso ter vergonha na cara e acabar com representantes da república e governadores civis que nos custam mais de 600 milhões de euros ao Orçamento de Estado. É o que dá ter tantas auto-estradas (um País tão rico em termos de construção civil e obras públicas) que fez com que deixasse de se justificar a existência de governadores civis (o Ministro da Administração Interna poderá ir mais para fora do Terreiro do Paço, cá dentro); sendo certo que por outro lado, os madeirenses e açorianos não necessitam de tutores da República, podendo as suas funções ser exercidas pela Assessoria Jurídica no Palácio de Belém.

É preciso saber qual foi a receita fiscal da venda dos computadores Magalhães para a Venezuela, já que, estranhamente, tivemos um Primeiro-Ministro a fazer publicidade dos mesmos numa Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo.

Não admira as sucessivas notações negativas das agências de rating.

O meu lamento por um País que eu amo e está eternamente adiado pois aquilo que é público passou a colectivo (de alguns), sendo que todos pagam por tabela.

A vossa falta de visão estratégica e a conivência (passividade é cumplicidade) perante este estado de coisas é confrangedora.

Dêem o vosso lugar a quem queira, de facto, mudar "isto" e colocar os interesses gerais acima dos particulares.

Com cumprimentos,



Pedro Sousa
Membro único (mais valerá só que mal acompanhado) do Movimento Cidadania Pró-Activa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

OS EUNUCOS


O doutor Passos Coelho deslumbrou-se. Cheio de si, e após um período inicial em que obrigou Sócrates e vir comer-lhe à mão, julgou que tudo eram favas contadas. As sondagens ajudaram ao deslumbramento. Deleitado com os louros – e enquanto Sócrates não cai de podre – passou-lhe pela cabeça que já podia deixar-se de cuidados. Julgando ter o país na mão, atirou-se à Constituição, ao Serviço Nacional de Saúde, à Educação, às já de si precárias relações de trabalho, enfim, a tudo o que ainda resta do sentido social da lei fundamental nascida do 25 Abril de 1974 – e mesmo de algumas coisas que já eram garantidas pelo regime fascista. Se até agora Sócrates tinha dito mata, Coelho pensou que já podia dizer esfola. Foi um tiro na canela e, ao mesmo tempo, o entregar do ouro ao bandido da concorrência. Sócrates e o PS respiraram um pouco melhor.

Assustada com a infantilidade, a rapaziada social-democrata voltou a agitar-se e a pensar que esta laranja, afinal, parece ter secado muito depressa. Que era, como sempre me pareceu, mais casca do que sumo. Não que as medidas propostas sejam coisas que desagradem aos barões das setinhas, mas porque o momento para esfolar não é propriamente este, em que a vítima ainda dá sinais de vida. A falta de maturidade, se desculpável num dirigente da JSD, não pode deixar de afligir aqueles que confiavam no rapaz para voos mais altos. Ou seja: Passos Coelho, como político fiável, esgotou-se à velocidade da luz. O Síndroma de Peter explica estas coisas.

Entretanto, um Sócrates desacreditado e um PS sem saber que mais pode fazer sem pôr em causa a sua maioria relativa, tentam encontrar no PSD a tábua de salvação que lhe permita partilhar o desgaste provocado pelas medidas de sangria que, em nome do grande capital, querem acrescentar ao PEC. E se PS e PSD estão de acordo nesse sangrar, divide-os a necessidade de o fazerem sem se chamuscarem excessivamente, tentando que seja sempre o outro a ficar com o ónus do crime. Na verdade, o que os divide é saberem que as gamelas do poder só podem sustentar um deles de cada vez. Como sempre, não é o país que está em causa – nunca foi – mas o assalto ao poleiro. E o que o poleiro traz consigo.

Entretanto, o desemprego cresce. A economia asfixia, porque a procura diminui com a crescente falta de poder de compra da imensa maioria da população. O comércio cambaleia, e multiplica os saldos e as promoções a que ninguém adere, porque nem para isso há dinheiro. O sector produtivo baixa a produção, ou produz para as prateleiras. O défice não pára de subir. O endividamento do Estado e das famílias atinge níveis insustentáveis. Aquilo que, aqui há uns anos, se adquiria sem se pensar, como um jornal ou uma bica, deixou de fazer parte dos hábitos da maioria dos portugueses. Os cafés, outrora bem compostos de clientela em qualquer época do ano, e a qualquer hora do dia, estão agora às moscas.

PS e PSD, que têm governado o país nos últimos 34 anos, a isto nos conduziram. Reconhecem a crise, porque são pais dela. Todos os dias a alimentam, todos os dias ela lhes serve de pretexto para saquear um pouco mais. No entanto, numa tresloucada fuga para a frente, defendem as cabeças bem pensantes que serão PS e PSD a salvar o país. E garantem outros, apenas porque não pensam nada, que as escolhas do povo são sempre acertadas. A vida prova o contrário, mas a imbecilidade não tem a noção do ridículo.

Neste contexto depressivo, uma nota grotesca: querem abrir as grandes superfícies ao domingo. Todo o dia. Que vão ser criados mais postos de trabalho, que se deve respeitar o consumidor, as necessidades das famílias. Seria de rir às gargalhadas, se a situação não fosse trágica. Então, haverá alguém que passe a comprar, ao domingo à tarde, aquilo que não comprou durante a semana? Se sim, como viveu até agora? Vai comprar-se mais? Com que dinheiro? Só se ao domingo à tarde os produtos forem mais baratos...

Na verdade – e mais uma vez – esta é uma decisão que só interessa aos grandes grupos económicos (SONAE e Jerónimo Martins, por exemplo) que, insatisfeitos com a louca acumulação de lucros dos últimos anos, querem esmagar o que resta do comércio tradicional, forçar os trabalhadores a cargas horárias insuportáveis (é para isso que encomendaram o Código do Trabalho) e sem mais encargos com o pessoal.

Mas a vilanagem está nas suas sete quintas. Por enquanto – e pelo que se vê e ouve – não passamos de um país de eunucos.

(João Carlos Pereira)


Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 28/07/2010.
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quarta-feira, 21 de julho de 2010

A GRANDE INTRUJICE

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Na última campanha eleitoral, Sócrates garantiu aos portugueses que, caso ganhasse as eleições, o seu governo iria oferecer a todos os recém-nascidos um cheque de 200 euros para a abertura de uma conta-poupança. Não faço ideia de quantos papalvos votaram PS à conta desta patranha, tal como não sei se algum casal de palonços se lembrou de fazer um filho, fiado na promessa do senhor «engenheiro». Se alguém o fez, faça agora cruzes na boca. A lei que daria vida a tal promessa está na mesma gaveta onde repousa, comido pelas traças, o socialismo do doutor Soares: a gaveta dos esquecidos. Se aqui trago este exemplo, é só porque ele ilustra bem a qualidade da democracia portuguesa.

Democracia vem da palavra grega “demos”, que significa povo. Consta por aí que, em democracia, é o povo quem detém o poder soberano sobre o poder legislativo e o executivo. É democrático um governo no qual o poder e a responsabilidade cívica são exercidos por todos os cidadãos, directamente ou através dos seus representantes livremente eleitos. As democracias promovem regularmente eleições livres e justas, abertas a todos os cidadãos. As eleições devem ser verdadeiras competições pelo apoio do povo. Democracia é, também, um conjunto de princípios e práticas que protegem a dignidade e a liberdade; é a institucionalização desses valores. Por isso, a democracia sujeita os governos ao Estado de Direito e assegura que todos os cidadãos sejam iguais perante a Lei.

Estes lindos conceitos, em Portugal, transformaram-se numa imensa fraude. Em primeiro lugar, porque a manipulação ideológica, assente em estruturas propagandísticas cientificamente montadas, levam os cidadãos a aderir aos partidos principalmente por via empática, ou seja, como base em afectos e outros estímulos emocionais, e não por razões objectivas de interesse pessoal ou de classe. Adere-se a um partido porque se simpatiza com o líder, ou por outra qualquer razão absolutamente pueril e, a partir daí, cometa esse partido os crimes que cometer, ou sejam os seus responsáveis verdadeiros malfeitores, come-se e cala-se. E, às vezes, até se aplaude.

As campanhas eleitorais, por seu lado, não são um espaço sério de confrontação de projectos e de apresentações de propostas de governação. São, no geral, um lastimável cortejo de enganos, de promessas falaciosas, um desfilar carnavalesco de intrujices por atacado, um turbilhão circense de palhaçadas e, principalmente, um encobrimento obsceno das medidas que, poleiro alcançado, hão-de fustigar, forte e feio, as classes trabalhadoras.

A maioria do eleitorado, não vota racionalmente. Vota «clubisticamente», como se o que estivesse em jogo fosse apenas a vitória numa disputa desportiva, e não questões fundamentais da nossa vida, como o emprego, o salário, a Saúde, a Educação a Segurança Social, enfim, tudo o que é realmente importante para um ser humano. Em Portugal, limitamo-nos a entregar pelo voto, de forma néscia e irresponsável, os poderes legislativos e executivo a grupos de intrujões salafrários que, depois, fazendo tábua rasa das suas propostas eleitorais e da sua obrigação de zelar pelos nossos interesses – e valendo-se da nossa incapacidade para intervir civicamente – levam a efeito políticas que conduzem sempre ao mesmo resultado: a subordinação social e económica de milhões de pessoas aos interesses de pequenos grupos que, porque detêm o poder económico, detém, realmente, o poder político.

Isto é a subversão do Estado de Direito. Isto é a subversão da ideia de Democracia. O recente debate sobre o estado da nação, com o governo e os senhores deputados a representarem a rábula do costume, é um exemplo obsceno da grande intrujice em que se transformou a nossa vida política. Uma liturgia infame, representada por senhores e senhoras que nada fazem para resolver os problemas nacionais, que, aliás, todos os dias se agravam. Conversa fiada, discursos e intervenções sempre iguais, ataques e contra-ataques inflamados.

País fora, os apaniguados de cada equipa exultam, ora babando-se com as tiradas dos «seus», ora ululando com as respostas dos «outros». Os indiferentes, riem-se do espectáculo mas, depois, chamados ao voto, muitos deles alimentam a palhaçada. E feitas as contas, quase metade dos cidadãos já nem se dá ao trabalho de comparecer nas urnas.

Uma coisa é certa: se esta «democracia» funcionasse, o país não estava como está: cada vez mais pobre, cada vez mais desigual, cada vez mais injusto, cada vez mais inseguro, cada vez mais inviável.

É altura de pedir contas a estes intrujões.



(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 21/07/2010.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

O GRITO


Acabem com o resto. Rapidamente e em força, como dizia o outro. Aproveitem agora, que o povo já mostrou que está disposto a deixar-se cavalgar como besta acéfala e inofensiva. Espetem as esporas até ao osso. Até ao tutano, se for possível. Bem fundo. Sem dó nem piedade. Aproveitem, que os tempos correm de feição.

Não precisam, sequer, de dar explicações, de inventar pretextos, de engendrar desculpas. O défice? As contas públicas? O petróleo? A crise económica? A conjuntura? Tudo junto? Não! Não precisam de mentir mais, de lançar mais poeira para o ar, de fantasiar mais imposturas. A ralé aceita tudo sem pensar, sem um gemido, sem um coice. Já está domada, amorfa, conformada. Basta-lhe um telemóvel para dedilhar mensagens vãs, uma televisão que debite futebol e programas imbecilizantes, macacadas sonoras e coloridas. Mantenham, apenas, a farsa das discussões parlamentares, para que paire nas nossas mentes a vaga e ilusória ideia de haver alguém preocupado connosco. Que a democracia existe e funciona. E, por consequência, que tudo é democrático. Que tudo é legítimo. Que tudo é, logicamente, incontestável.

Aproveitem já, que o povo está sereno, é compreensivo e, principalmente, passivo. Levem o resto. Reforma? Só aos setenta. Ou mais! Férias pagas? Subsídios de férias e de Natal? Nem pensar! São luxos incomportáveis com a saúde da economia. Ordenados? Salários? Retribuições? Só o indispensável para se aplicar a carga fiscal conveniente e, claro, permitir os gastos necessários à manutenção da energia suficiente para continuar a trabalhar. Horários? À hora que as entidades patronais quiserem, quantas horas quiserem, nos dias que quiserem. De dia ou de noite, sem distinção.

Avancem já com todas as medidas destinadas a salvar a Pátria. Risquem do léxico a expressão «direitos dos trabalhadores». Isso não existe. O que existe são regalias imorais – e foram elas que levaram o país à bancarrota. Os trabalhadores só têm um direito – e mesmo assim condicionado à oferta existente no mercado: o direito de trabalhar. Que é, apenas, a patriótica obrigação de produzir riqueza. E por aí devem ficar. O resto, especialmente a repartição dessa riqueza, é com as elites competentes, os cérebros cintilantes que conduzem a economia e a política. Democraticamente, ressalve-se.

E, democraticamente, taxem tudo o que for possível taxar. Fixem portagens em todas as vias públicas – estradas, caminhos, azinhagas, becos e vielas. Taxem os jardins, tendo o cuidado de, no Verão, agravar os preços nas zonas de sombra, pois não é justo que os que estão ao sol paguem o mesmo que os que se protegem das inclemências estivais. No Inverno, contudo, agravem os espaços banhados pelo sol, pois quem se quer aquecer não deve fazê-lo gratuitamente. Universalizem, a bem da nação, o sagrado princípio do utilizador, pagador, para que a moralidade impere e a justiça não seja palavra vã.

E, principalmente, privatizem tudo. O resto. Privatizem todo o chão, incluindo o chão dos cemitérios, toda a água doce, todo o ar respirável. Privatizem o vento, as nuvens, os mares e a luz do luar e das estrelas. Não deixem nada de fora da furiosa maré privatizadora, pois só quando todo Portugal for uma imensa sanzala é que, finalmente, a paz reinará sobre este canteiro à beira-mar plantado.

Vá lá, «engenheiro» Sócrates. Vá lá, doutor Passos Coelho, Vá lá professor Cavaco Silva. Deixem-se de pruridos, de hesitações, de manobras calculistas. Acabem depressa com o que resta. Digam que o 25 de Abril foi um equívoco trágico. Digam, sem papas na língua, que a Constituição da República é um entrave à salvação do país. Reneguem-na, revoguem-na, rasguem-na. Digam, sem rodeios, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um texto lírico e obsoleto.

Vá lá, ilustres democratas, digam aos portugueses que eles só existem para sustentar a magnífica opulência dos donos da sanzala.

Vá lá. Falem verdade uma vez na vida.


(João Carlos Pereira)

Crónica lida nas “Provocações” da Rádio Baía em 14/07/2010.
Não deixe de ouvir em 98.7 Mhz e participar pelos telefones 212277046 ou 212277047 todas as quartas-feiras entre as 09H00 e as 10H00.